quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Intestino Grosso

   Alguém me liga. É um jornalista, quer uma entrevista. Só a dou se for pago por palavra. Como ele falou que teria que falar com seu editor lhe falei que só poderia lhe dar a seguinte frase de graça: Adote uma árvore e mate uma criança. Falei com o editor e combinamos uma entrevista. O jornalista foi na minha casa, ligou um gravado r e começou a entrevista.
Perguntou-me muitas coisas. Quando comecei a escrever? Disse-lhe que foi aos doze anos, uma tragédia. Ele me acha preocupado demais com a morte, eu não acho. Digo-lhe que tenho cinco mil livros na minha biblioteca e que já os li completamente, já que leio um livro por dia. Falei-lhe da demora de sair minha primeira publicação. Ele diz que me acham um autor pornográfico, não o sou, apenas escrevo sobre miseráveis sem dentes. Me levanto e vou a janela, digo-lhe que também escrevo sobre nobres. Ele pergunta qual minha inspiração. Oras escrevo o livro à maneira de Marcel Proust. Eu estava com um livro na mão o entrevistador vem ate mim e o pede, se espanto quando vê o título: O anão que era negro, padre, corcunda e míope. Me diz que aquele livro foi interpretado de varias maneira, inclusive como pornográfico. Digo-lhe que até nas historias infantis a pornografia. Nossos avós usam palavras bonitas para falar pornografias, mas não deixavam de ser pornografia por isso. Acho que os palavrões estão tendo um efeito catártico, de alívio de tensão e pressão. Não vejo mal nenhum em obscenidades, pornografia. Penso que os homens estão crescendo demais em quantidade. Claro que eu comeria meu pai em formatos de biscoito. Também lhe revelei que odeio escrever. Após isso ele foi embora. Acho que não gostará da entrevista, mas mesmo assim a publicará. O telefone toca, é ele me dizendo que falei duas mil seiscentas e vinte e sete palavras e que me mandariam o cheque. Desliguei o telefone sem me despedir, afinal eu sei tudo e sou perigoso por isso.

74 degraus

   Chamo-me Elisa e neste momento Tereza deve estar arrumando seus quadros e estátuas de cavalos de que tanto gosta. Toco a campainha; Tereza está surpresa por me ver. Carrego um enorme embrulho. Vi em seus olhos que ela não queria me ver naquele dia. Dou um beijo leve em seu rosto – quase em sua boca. Entrego-lhe o presente que trouxe um cavalo de cerâmica. Peço que tudo volte a ser como era antes, mas Tereza finge não me ouvir. Diz que a culpa é minha de as coisas não estarem como antes.
   Ela está perto de mim, me ponho a pensar em sua pele... A campainha toca, eu abro a porta. Saio correndo quando vejo um homem, Pedro, entrar e abraçar Tereza. Ela diz a ele que eu estou com cólicas. Os dois estão a conversar.
   O pai de Pedro era cavaleiro, mas não competia. Tereza com certeza quer saber coisas sobre ele; ela faz muitas perguntas. Sabe que se Pedro tivesse competido no ultimo ano teria ganhado, pois com Lord Jim, o cavalo de seu marido, qualquer um ganharia.
   Pedro se põe a falar de Lord Jim e agradece Tereza por tê-lo deixado montar nele. Mas ele não conhece Tereza como eu, Elisa. Eu sei que ela o está testando. O marido de Tereza, Alfredo, se acidentou gravemente, montando esse cavalo. Durante muito tempo nós ficamos o visitando no hospital.
   Tereza, provavelmente, vai quere lhe prepara uma comida. Os dois vão para a cozinha conversar. Ela revela que prefere os cães e Pedro não esconde sua paixão pelos cavalos.
   Tereza pega nos braços de Pedro, nas pernas também. Ele não gosta. Ela está entediada e vai mexer na minha bolsa que esqueci na sua casa quando saí correndo porta a fora. Pedro revela que gosta de Tereza, do jeito que um homem honesto gosta de uma mulher.
Pedro confessa que não é rico, não é fazendeiro... Mas Tereza não ouve apenas quer transar com ele. Ela o leva para o quarto e quando cai em si começa a xingá-lo. Acho que ela nunca mais vai querer homem nenhum. Ela ameaça matar os cavalos que são a paixão de Pedro; ele a agarra pelo pescoço, ela desfalece.
   A campainha toca. Sou eu, ele diz que Tereza foi ao armazém. Pedro começa a flertar comigo. Pede para que eu monte nas suas costas como num cavalo. No quarto minha amiga volta a si e nos vê naquela situação. Ela pega uma estatueta de bronze e bate várias vezes na cabeça de Pedro.
    Eu e Tereza nos deitamos no sofá, ela me contou sobre o acontecido. Nós nos amamos.
   Pedro ainda não morrera, estava no chão. Eu me levanto e o golpeio mais vezes, volto para os braços de Tereza.
   A campainha toca é Daniel que recebera um recado meu pedindo para Começa a fazer muitas perguntas para Tereza, ela se irrita e com apenas um olhar nos comunicamos. Pegamos a estátua de bronze e o golpeamos muitas vezes. Colocamos seu corpo junto com o de Pedro. Depois, no final deste dia, descobrimos que é muito fácil matar uma ou duas pessoas. Principalmente se você não tem motivo para isso.




Entrevista

   Sou Gisa, mandei “M” fazer uma entrevista com “H”. “M” deve estar assustada, pois “H” deixa as luzes de sua sala sempre apagadas e, também, não quer dizer seu nome. “H” serve bebidas e pergunta como “M” veio para o Rio de Janeiro. Ela lhe conta que demorou muito para chegar, pois veio de carona. Conta que veio porque seu casamento terminou por causa de outra mulher. Ela “M”, também, conta que estava grávida. “M” conta que durante uma janta com seu marido, a amante aparece, e eles se beijam na frente dela. Ela não se controla e golpeia o peita da mulher várias vezes, foge e tranca-se em seu quarto. Seu marido vai atrás dela e quebra todos os móveis da casa. “M” deve estar falando ainda e contando que ele conseguiu arrombar o quarto que ela estava e que a arrastou pelo chão dando pontapés na barriga. Ela perdeu o filho, um menino. A família de “M” chegou na hora e espancou seu marido. Ela o viu uma única vez mais, quando estava indo embora, mas não quis falar com ele, pois diz que ele ia pedir perdão e dizer que era diferente. “M” não quis mais falar com ele, conheceu muitos homens e diz ser feliz. Diz só se lembrar dele apoiado nas muletas e que ele anda com um punhal para matá-la. Agora a entrevista deve estar chegando ao fim, “M” pede para ligar as luzes da sala. “H” deixa e pergunta se ela não tem medo de ser encontrada pelo seu ex-marido. “M” diz: “não mais... o que está esperando?!”.



Nau Catrineta

   Sou Olímpia e hoje meu sobrinho está completando vinte anos, por isso que estou a declamar a Nau Catrineta aqui no corredor do seu quarto junto as minhas irmãs. De dentro do quarto escuto a voz de um sobrinho a dizer que está acordado. Minha irmã Helena carrega um velho livro. Regina, minha outra irmã, traz uma bandeja com o café da manhã. Julieta, uma cesta com frutas colhidas em nosso pomar. Eu me visto com o traje que usei para representar École dês femmes, de Molière.
   Hoje meu sobrinho lerá o diário secreto, no qual está definida sua missão. Eu estava ansiosa, naquela bela manhã, queria saber se ele já havia escolhido a moça. Ele me disse que sim.
   À noite eu e minhas irmãs daremos uma festa de aniversário para ele, na qual ele nos apresentará a moça escolhida. O nome da moça é Ermelinda. Nós entregamos o diário secreto ao nosso sobrinho e saímos; ele ligou para Ermê.
Eu, Olímpia, e minhas irmãs tiramos dos nossos baús os nossos mais pomposos vestidos. Nosso sobrinho deve estar muito pensativo após ver sua missão.
Agora já é noite e, meu querido sobrinho, vê o carro de Ermê se aproximando de sua casa. Ele a recebe na porta. Ela diz estar com medo, acha a casa sombria. Ele leva Ermê para a sala onde eu e minhas irmãs estamos. Moça muito carinhosa e educada.
Nosso sobrinho nos dá o aviso de que sua missão será cumprida hoje mesmo. A janta ocorre com alegria e muitas conversas. Ermê gosta de nós. Mas quando as histórias começam a ficar mais sombrias ela fica calada.
Eu junto com minhas irmãs resolvo ir para a capela e deixar nosso sobrinho e Ermê a sós.
   Após nós sairmos da sala os dois ficam a conversar e a se beijar. Nosso sobrinho leva uma garrafa de champagne para os dois. Sentam-se lado a lado; ele tira do bolso um frasco negro que minha irmã Helena havia entregado para ele pela manhã. Ele recebera esse frasco, pois estava escrito no diário secreto que sua missão é a de escolher e sacrificar uma pessoa no seu vigésimo aniversário. Mata-la e depois comê-la. E para que Ermê não sofra Helena lhe entregou esse frascoque tem um poderoso veneno.
   Ele esperto diz para Ermê que o frasco contêm o filtro do amor. Põe o veneno nos copos. Ela leva a taça à boca; a morte é instantânea.
Eu e minhas irmãs orgulhosas entramos na sala, vimos o corpo. Todas as partes serão aproveitadas, dos ossos até as carnes.  Ao final de tudo nós nos reunimos à mesa onde cada um comia um pedaço de carne e nosso sobrinho recebeu o Anel que ficava no dedo indicador de minha irmã Julieta. Agora ele é o chefe da família.


O campeonato

   Chamo-me Milor Palor, sou o último campeão do campeonato de conjunção carnal. Este campeonato estava proibido por não se saber os efeitos que fazia no desenvolvimento psicossocial dos jovens, até que uma tarde na sauna resolveram me desafiar. O desafiante chamava-se Mauricio Chango, um ser sem nenhum cartel para me desafiar. Desafiou-me na frente de todos, Gorki, o corretor autorizado; M. Ribas,reserva de segunda; o atacadista Zamir Jacob; O médico Axelrud; o executivo J.R., meu contratante. Disse: “faço mais do que isso.”. Como ele pensa que pode fazer mais do que eu? Mais do que quatorze conjunções carnais em vinte e quatro horas? Não me espantei, sou um campeão e o destino de todos campeões é ser desafiado. Confesso que não queria ser desafiado por ele, além do mais para acontecer esse concurso era preciso uma supervisão o que não tinha, pois A Confederação Nacional Desportiva de Conjunção Carnal estava em recesso.

   J.R., o executivo, garantiu que financiaria todo o evento e ofereceu-me uma bolsa de quinhentos mil. Não pude resistir, aceitei. J.R. mandou chamar Açoreano, que seria o arbitro do concurso, secretamente. Ele chegou todo de preto e com dois assistentes. Disse: “minhas decisões são incontestáveis, eu sou o Açoreano, comigo ninguém discute, eu sou a Lei e o Juiz.”

   Nos falou das regras do concurso. Às doze horas de sábado às doze horas de domingo quem realizar o maior número de conjunções carnais será o vencedor, eu e meu desafiante ficaríamos cada um em um quarto, assistidos por um dos fiscais do Açoreano em todos os momentos do dia.Só poderíamos utilizar como estimulantes extras alguns recursos, entre eles, recursos audiovisuais. Não poderíamos ter a colaboração de terceiros; além dos fiscais eda parceira que poderia ser trocada a cada conjunção ninguém mais poderia entrar no quarto. O Açoreano, por ser o fiscal, poderia entrar na hora que quisesse nos quartos. Só seria aceita e computada a conjunção que obedecesse a todos estes quesitos: introdução vaginal do pênis, seguida de emissio seminis, também intra vas, mínimo de meio centímetro cúbico. Qualquer infração que cometêssemos poderia nos eliminar.

   Açoreano alugou um hotel na orla marítima, o Aldebaran, para a realização do campeonato. Ele instalou equipamentos de transmissão de TV em circuito fechado; no living principal foram colocados  dois vídeos para que os apostadores pudessem acompanhar os principais lances da porfia.

   As dez horas da manhã de sábado eu, Parlo, e meu desafiante, Chango, estávamos nos apresentando. Tínhamos que escolher um assessor; eu escolhi Ursinho Meireles e Chango indicou Gorki. Nossos assessores ficaram incubidos de conseguir as parceiras que queríamos, organizar os recursos audiovisuais, cuidar de nossa alimentação e providenciar entretenimento.

   Ursinho Meireles, meu assessor, distribuiuas informações sobre minhas parceiras, eram quinze, todas com as medidas regulares estabelecidas pela Sociedade Nacional de Normas Biométricas, ou seja, perfeitas. A idade média das minhas parceiras era dezoito anos e seis meses; a altura média era de 1,66 metros e o peso médio de 51,2 quilos. Sobre as parceiras de Maurição não sabíamos nada, era surpresa.
Eu e Maurição desfilamos pelados no living principal do Aldebaran e nos postamos em pedestais logo após para que os apostadores pudessem nos examinar e ver nossos sinais de aptidão e vocação. Ouvíamos muitos comentários sobre nossos corpos.

   Gorki, logo após sairmos do living, anunciou  que Maurição usaria muitos recursos audiovisuais. Segundo ele a correlação estímulo-resposta desses elementos seria um excelente resultado e eu não conseguiria acompanhar o ritmo de Maurição. Logo após, dói a vez de meu assessor anunciar nossa tática que era:  durante as vinte e quatro horas, dormiria durante oito horas; minha alimentação seria de ostras com limão, carne crua, leite gelado e ovos de tucanos quentes; e finalmente, entre uma conjunção e outra, eu meditaria.

Às doze em ponto começou nosso confronto. Eu terminei minha primeira conjunção em 45 segundos e meu volume seminal foi exato. Meu concorrente terminou a sua em um minuto e doze segundos e seu volume seminal de um centímetro cúbico.  Maurição começou sua segunda conjunção  treze minutos e 48 segundos após a sua primeira; eu, Palor, comecei a minha uma hora depois da primeira, diminui meu tempo e mantive o volume seminal.

   Às dezoito horas meu concorrente já tinha completado oito conjunções e eu, quatro. Maurição já estava levando muito tempo para ejacular, dez minutos ou mais. Então falei para os apostadores: “E vou ganhar esse campeonato. Vocês entendem que todos os campeonatos buscam apenas preservar a nossa natureza animal? Não podemos deixar de ser um animal. Não somos um inseto! Somos um animal! Ouviram, apostadores? Estamos presenciando o grande instante final da conjunção carnal. O formigueiro nos espera. Vocês me entendem?”

   Eu ganhei o campeonato, efetuei quinze conjunções carnais nas vinte e quatro horas, bati meu próprio recorde. Meu concorrente completou apenas dez conjunções.

  Após esse dia os campeonatos foram oficializados, mas eu nunca mais participei de nenhum e, meu recorde nunca foi batido. O esporte deixou de ser praticado há algum tempo. Ninguém mais se emociona com ele, aqui no formigueiro.

O Pedido

      Sou um português, viúvo, biscateiro, me chamo Amadeu Santos. Há algum tempo, fiquei dois dias rondando o depósito de garrafas de Joaquim Gonçalves, estava sem coragem de entrar. Mas um dia estava chovendo muito, estava cansado com a perna doendo do reumatismo, além do mais, minha bronquite crônica estava fazendo com que eu tossisse sem parar. Caminhei pelo meio das pilhas que garrafas, que por sinal estavam empoeiradas, até o fundo do depósito, onde, encontrei Joaquim sentado numa mesa.
       Nós quando meninos havíamos emigrado juntos e não nos víamos tinha cinco anos, desde que brigamos por um motivo que nem me lembro mais. Mas Joaquim deve saber o motivo e isso tornou muito constrangedora a minha visita.
       Joaquim estava fazendo contas a lápis em um pedaço de papel de embrulho pardo, ele estava calvo e os cabelos restantes estavam grisalhos. Joaquim, de primeira vista não me reconheceu, já não sou mais aquele homem forte e bonito, agora estou magro e abatido, visivelmente tomado pelas privações e pela doença.
        Perguntei como Joaquim estava. Não tive coragem de lhe estender o braço. Disse-me que estava indo, também perguntei como iam os negócios, falou que não se queixava deste. Acho que Joaquim estava imaginando o propósito de minha visita. Minhas roupas surradas, meus sapatos velhos, mostravam já que eu não estava bem de vida. Falou também que os negócios não eram mais como antigamente, talvez estivesse prevendo um possível pedido de dinheiro. Deve ter pensado já que somos inimigos, eu não me atreveria a pedir dinheiro.
       Logo perguntei se poderia sentar, senti minhas pernas doerem. Disse-me “senta”. Fiquei em silêncio, olhando para o chão, Joaquim voltou a fazer suas contas, mas de vez em quando levantava a cabeça para me observar. Somos da mesma idade, mas ele com certeza dever te visto que não está tão acabado quanto eu, ou até mesmo ter sentido um pouco de pena. Deve ter esperado nosso encontro para vingança, mas se esperou realmente não sei, estava com cara de que não estava com vontade de se vingar.
       Sem tirar os olhos do chão perguntei se ele podia me emprestar quinhentos cruzeiros, e também disse que não estava bem de saúde e por isso tive que parar de trabalhar.
       Ele perguntou pelo meu filho doutor, perguntou por que não peço a ele. Tive que responder sem exitar, que meu filho tinha morrido. Contei a ele que depois que meu filho Carlos se formou, se casou com uma colega da faculdade, uma baiana, e que os dois haviam se mudado para a terra dela, onde pretendiam trabalhar e que cerca de um ano e meio depois, já com um filho pequeno ele morreu em um acidente de automóvel.
       Revelei também que até hoje não conheço meu neto. É acho que nós havíamos brigado por causa do meu filho médico. Joaquim também tinha um filho, Manuel, um rapaz que não havia terminado o ginásio, ignorante, não fazia nada da vida. Nossa amizade foi se terminando conforme Manuel ia pelas ruas vagabundeando e Carlos fazendo o curdo... No dia da formatura de Carlos, Joaquim sentiu-se pessoalmente afrontado e deixou de falar comigo.
       — Dinheiro não dá em árvores, disse-me Joaquim, acho que ele teve ter ficado com raiva por ter passado anos e anos invejando um morto. Ainda perguntou por que eu não vendia meu carrinho de mão, mas já tinha vendido. Podia ter dito que um dia precisei vender o carrinho de mão para pagar as despesas de onde fiquei hospitalizado, e que devia seis meses de aluguel do mísero quartinho que alugo e que vivia com uma sopa por dia. Perguntou por que não pedia dinheiro a minha nora, disse que sentia vergonha. Eu realmente estava disposto a agüentar essa humilhação. Questionou-me por pedir tanto dinheiro, já que uma passagem para a Bahia custa menos. Disse que queria dar algum dinheiro ao meu senhorio, ele esteve sendo muito bom comigo.
       Acho que nesse momento parte do ressentimento de Joaquim estava se dissipando, por causa da miséria em que estava e da morte de meu filho.
       Joaquim foi em direção ao cofre dizendo que não sabia se tinha todo o dinheiro. Nesse momento pensando que ele me daria o dinheiro, comecei a pensar em minha nova vida na Bahia, ao lado de minha nora que não tinha se casado novamente. Fazia anos que minha mente não se enchia de pensamentos felizes. Até minha perna que desde que tinha entrado lá estava doendo muito, parou de doer. Meu coração se tomou de carinho pelo meu amigo, relembrei da viagem que havíamos feito juntos, no navio de emigrantes, sem dinheiro, mas com saúde. Tive tantas lembranças nossas, e boas, achei que deveria dizer algo de bom para ele, já que até aquele momento apenas tinha contado minhas desgraças e pedido dinheiro.
       Perguntei como ia Manuel, se ele estava bem. Para que fiz a pergunta, não sei, só sei que ele parou de contar a notas como se estivesse em choque. Ainda jogou o dinheiro para dentro do cofre, e fechou a porta com força. Além de me questionar a respeito da pergunta, com muita mágoa, disse que eu sabia como ele ia, chamando seu filho de “cretino”. Logo protestei dizendo que não sabia de nada.
       Disse-me que Manuel era um vagabundo, não fazia nada, dormia de ia e saia á noite, estava indignado por um rapaz de mais de trinta anos ser sustentado pela mãe que pegava dinheiro de Joaquim  para dar a seu filho.
       Claro que eu não sabia, aliás, pensei ser melhor ter um filho morto. Logo uma lágrima seca feita quase somente de sal escorreu pelo meu rosto, era por meu filho e pelo filho de Joaquim. Quando viu as lágrimas escorrendo em meu rosto, acho que Joaquim ficou meio constrangido. Sem me interessar por mais nada sai caminhando com um pouco de dificuldade, apenas disse adeus. Já tinha saído daquela mesma rua, quando de longe ouvi, os gritos de Joaquim chamando algumas vezes por mim.

Agruras de um jovem escritor

     Tudo começou em um dia onde logo pela manhã já estava dando tudo errado. Resolvi ir para a praia, mas não posso ver o mar, me faz mal, quando estava indo embora abri os olhos por um segundo para atravessas a rua, não vi carro algum, apenas o mar, e na mesma hora vomitei e tive crises de suores e frios. Depois que passou fui para casa, tirei o calção, fiquei nu, estava esgotado, mas de repente a capainha tocou, expiei no olho mágico e vi uma pessoa encapuzada. Logo pensei que era um assaltante. Fiquei apavorado, Lígia tinha ido viajar, estava sozinho, tentei ligar para a polícia, pedi socorro pela janela e ninguém me ouviu ou talvez fingiram. Então fui para a cozinha pegar um facão, abri a porta com ele na mão, era apenas uma freira que saiu correndo e gritando pelo corredor. Claro, não é todos os dias que se vê um homem em sua casa abrir a porta nu e com um facão. Pouco tempo depois a campainha tocou novamente, desta vez era a polícia, me deram uma intimação para depor na segunda,  porque a freira deu queixa dizendo que havia sido ameaçada de morte. É... agora não se pode andar nu na própria casa.
            Já no domingo, Lígia voltou inesperadamente e me pegou no cinema com uma garota, e lá mesmo, fez escândalo, me encheu de pancadas, acabei levando vinte pontos na cabeça. Tive que ir ao hospital, e lá, mostrei o que ela havia feito, e disse que não dava mais para continuarmos juntos. Nisso ela abriu a bolsa e mostro-me um revolver, e ainda falou que se a traísse novamente, iria me matar.
            Toda essa confusão começou antes, quando certo dia, ganhei o premio de poesia da Academia, minha foto saiu no jornal, pensei que faria muito sucesso com as mulheres, mas esse só durou vinte e quatro horas. Foi assim que Lígia apareceu na minha vida, entrou no meu apartamento, dizendo que eu era um ídolo para ela, que não fazia idéia do que ela tinha passado para descobrir meu endereço, e que poderia fazer o que quisesse dela. Na hora fiquei comovido, porque o as minhas realizações estavam sendo ignoradas pelo mundo e de repente surge ela se jogando aos meus pés. Como não tinha para onde ir se instalou no meu apartamento, ela cozinhava para mim, fazia compras com o dinheiro que ganhava costurando para fora. Era boa, mas me obrigava a trabalhar no romance várias horas por dia ditando, enquanto ela digitava rapidamente na máquina, controlava isso, aturei muitas coisas até ela cortar minha cabeça e eu não poder sair fora para não tomar um tiro.então me fingi de broxa, ela logo me arrastou para o médico e pediu para o médico me mandasse fazer todos os exames. Ele ainda perguntou se não tinha sido premiado pela Academia. Quando voltamos para casa após a Lígia dormir tirei o revolver da bolsa dela e fui jogar ele em um bueiro na rua. Quando encontrei um e estava quase jogando, chegou um crioulo querendo me assaltar, quando me levantei ele viu o revolver, deu um passo para trás, mas já era tarde já tinha apertado o gatilho, e ele caiu no chão. Saí correndo para casa dizendo que tinha matado o crioulo. Lígia acordou, disse a ela que podia me matar, mas que iria embora, daí comecei a me vestir. Ela fez um drama dizendo que não era para eu abandoná-la, que fomos feitos um para o outro, que não terminaria o romance sem ela e que ela se mataria se a deixasse. Vi que ela não estava brincando, saí bati a porta, mas ela não saiu para me chamar como das outras vezes que brigávamos. Eu estava preocupado com a morte do crioulo. Andei pelas ruas e entrei num bar para beber, sentei e conversei com umas mulheres.
            Tarde da noite voltei para casa, já estava mal da bebida, falei com Lígia, mas ela não me respondeu. Então vi na mesinha de cabaceira um bilhete e um vidro de tranquilizantes vazio. Li o bilhete, e nele ela dizia que me perdoava e que achava difícil que me tornasse bom escritor. Sacudi-a com força, mas não adiantou. Descias escadas correndo a procura de um orelhão, pois meu telefone havia estragado, porém não tinha ficha. Do nada surgiu um assaltante, reconheci, era o crioulo, ele estava vivo! Suplicou para não mata-lo, disse que só queria uma ficha, pois precisava ligar para o pronto-socorro. Ele tinha uma ficha amarrada no fio de náilon, usei de devolvi. Convidei-o para ir até minha casa e dar-me apoio, se chamava Enéas, fez café para nós. O pronto-socorro chegou, disseram que tinham que chamar a polícia porque era caso de suicídio. Enéas disse que tinha que ir embora, me deixando sozinho com o cadáver, talvez porque a polícia iria chegar. Chorei pouco, não por falta de sentimento, minha cabeça naquele momento não permitiu, então, sentei na máquina de escrever e redigi outro bilhete como se fosse de Lígia para deixar no lugar do original, como se ela tivesse dito adeus e como se ela quisesse sair da minha vida para não me atrapalhar. Queimei o bilhete original e joguei-o no vaso sanitário.
Sempre fui gentil, apaixonado, tinha dignidade e consideração por Lígia. Fui à geladeira peguei uma cerveja, e fui para perto do corpo dela sem entender porque motivo algum dia ela escolheu-me, logo um escritor. A perícia chegou fez o que tinha que fazer e levaram o corpo. Fui intimado para depor na delegacia.
Logo imaginei o que sairia nos jornais, falando de uma Linda Mulher que se matou por um Jovem Escritor. Depois saí bebi, e acordei no dia seguinte de ressaca, e fui dar meu depoimento na delegacia, contei tudo, lá um fotógrafo ficou interessado pela história e tirou fotos minhas, perguntou se eu tina foto de Lígia, e ainda falou que seria ele mesmo que iria publicar a matéria. Esperei ansioso, mas quando li, dei graças a Deus por ele ser um jornalista mentiroso, a notícia falava do meu livro, mencionava minhas palavras na delegacia, e ainda inventava uma vida elegante para Lígia, como uma figurinista importante da high socity.
Voltei correndo para casa trabalhar, estava disposto a terminar o meu romance. Eu escreva andava, sentava, e depois voltava a escrever novamente, mas não demorou muito tempo para perceber que as palavras que estava escrevendo eram totalmente idiotas. Com Lígia ali não era assim, não lia as palavras conforme elas iam sendo escritas. Tentei deixar meu pensamento correr, escrever sem ler, mas igual estava sendo tudo uma porcaria.
Mais uns minutos depois, horrorizado percebi, que quem escrevia o romance não era eu e sim Lígia, uma simples costureira que mais parecia escrava deste escritorzinho de merda aqui. Só tive vontade de ir para cama e de morrer, é, mas foi isso mesmo que fiz... Deitei-me.
A campainha tocou, era um homem calvo, muito bem vestido, com um anel de rubi e uma gravata dourada, se apresentou como detetive Jacó, ele pediu para que eu escrevesse o nome de Lígia por extenso em um papel. Escrevi e ele foi embora, e eu voltei para a cama. Estava com fome e triste. A fome me fez levantar, ir no bar beber, o que aliviou a minha dor.
De volta em casa reli a obra irretocável que Lígia havia escrito, acho que ele até poderia ser publicado assim. Por fim me toquei que ela não queria terminar o livro pois isso poderia trazer o fim do nosso envolvimento, o livro era o que nos unia.
A campainha tocou novamente, era Jacó, aquele tal detetive. Chegou e disse que eu estava em maus lençóis, que haviam comprovado que a assinatura de Lígia tinha sido forjada, que a recita dos tranquilizantes estava em meu nome, alegou que quis matar uma freira sem nenhum motivo, mas sim para satisfazer meu gênio violento. É lógico que protestei, disse o que realmente ou, uma alma gentil e doce, e logo fiquei quieto. Disse ainda que tinha o depoimento do médico, alegando que eu e a morta brigamos no hospital, e duas moças na delegacia disseram que me ouviram falar num bar que, em minha vida, já envenenei algumas mulheres.
Disse que poderia explicar tudo, mas o detetive me cortou, me mandando explicar tudo na delegacia. Apenas peguei o livro e descemos juntos, tive que entrar em um carro da polícia.
Mas logo meu pensamento se voltou novamente para o que poderia sair nos jornais, talvez “romancista famoso acusado de crime de morte”. Ah! Esse meu pensamento polifásico.