quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Corações Solitários

   Eu trabalhava como repórter de polícia em um jornal popular da cidade. Há tempo não acontecia nenhum crime interessante envolvendo morte, desaparecimentos ou violências. Estávamos em uma fase ruim. Antes que essa fase melhorasse, fui demitido. Fui contratado por Oswaldo Peçanha, editor-chefe da revista Mulher. Uma revista feita para mulheres da classe C. Peçanha perguntou-me se eu poderia fazer a seção de mulher para mulher, que era tipo um consultório sentimental. Aceitei e ele pediu para que eu pensasse em um nome falso para mim. Escolhi Nathanael Lessa, só que todos que trabalhavam lá na revista usavam pseudônimos femininos. Peçanha ficou irado comigo pela escolha do nome masculino, pois teria de ser feminino. Ele falou que mais tarde me diria, pois o que eu queria era o emprego. Voltei a sua sala e vi que encima de sua mesa havia uma carta de meu primo, Machado Figueiredo, que trabalhava há mais de 25 anos no banco do Brasil e no qual Peçanha devia dinheiro. Quando ele soube que Figueiredo era meu primo, aceitou que eu tivesse um pseudônimo masculino. Foi assim que comecei a fazer parte da revista Mulher. Logo no primeiro dia percebi que as cartas que recebia eram falsas, mas mesmo assim, tinha que responder para ser publicada na revista. No dia seguinte, Peçanha me chamou e perguntou se eu podia escrever fotonovela. Disse que sim e teria que escolher um nome. Escolhi Clarice Simone. Enquanto escrevia para a revista e fazia fotonovela também, comecei a receber cartas de um tal de Pedro Redgrave. Só que essas não me pareciam falsas e sim verdadeiras. Ele escrevia e me mostrava ser um travesti depressivo e não assumido, pois em suas cartas ele relata que adora fazer coisas de mulheres, como fazer crochê, usar vestido e batom. Contei para Peçanha desta carta e ele falou-me que achava que tal carta era escrita por uma mulher, mas eu discordei. Continuei a receber cartas de Pedro e em uma ele dizia para eu mandar rezar uma missa para ele pois ele iria se matar por não poder ficar com quem ele amava. Peçanha me chamou e quando entrei em sua sala, havia um homem de óculos preto e cavanhaque, que se chamava Dr. Pentecorvo e que era Pesquisador motivacional. Tal homem disse para Peçanha que a maioria dos leitores da revista mulher era lida por homens da classe C. Peçanha revoltou-se tanto que Pentecorvo saiu de sua sala. Como era Peçanha quem analisava as cartas e as minhas respostas para depois publicá-las, ele entregou-me a carta de Pedro e a minha resposta para eu levar para a composição. Percebi que ele havia me entregue a carta errada. Era uma carta que não tinha o fim, parecia que tinha sido interrompida. Havia algo errado. Peguei a carta e fui até a sala de Peçanha. Entreguei a carta, ele percebendo o engano, empalideceu. Ele me falou que sua vida era um romance e pediu para que tudo ficasse entre nós. E eu respondi “claro, só entre nós”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário