Todo dia o carro parava na frente do prédio, bem cedo, eu saia dava alguns passos e estava dentro do escritório. Passava minhas manhãs dando telefonemas, lendo memorandos, ditando cartas. Mas sempre quando chegava o horário do almoça parecia que nunca tinha feito nada de útil. Almoçava em pouco tempo, depois logo voltava para o escritório, para voltar para o telefone, ás vezes mais de cinquenta vezes, não dava conta de assinar todas as cartas, muitas vezes levei trabalho para casa, para produzir melhor, longe do telefone.
Certo dia comecei a sentir taquicardia. Neste mesmo dia, na calçada uma pessoa me acompanhou até a porta do escritório pedindo a minha ajuda, somente dei-lhe um pouco de dinheiro e entrei. Logo após estava no telefone e senti uma dor, meu coração disparou, deitei no sofá, pois quase desmaiei. Resolvi nessa mesma tarde ir ao cardiologista, que me fez exames e disse que tinha que diminuir o peso e mudar de vida, me prescreveu um regime alimentar e mandou que eu caminhasse duas vezes ao dia. Falou para mim parar de trabalhar por alguns dias, comentei que seria impossível.
Já no dia seguinte na hora do almoço fui dar uma caminhada, e aquela mesma pessoa me pediu dinheiro, era um homem forte de cabelos castanhos compridos, dei-lhe o dinheiro e continuei. O médico havia me falado que se eu não me cuidasse eu poderia a qualquer momento ter um enfarte. À noite tomei dois tranqüilizantes, que não me deixaram menos tenso e nem menos irritado, não sabia o que fazer não tinha levado trabalho para casa. Logo após o jantar fui fazer a minha caminhada. No horário de almoço do outro dia, aquele homem apareceu pedindo dinheiro, perguntei se seria assim todo dia, ele respondeu dizendo que não conhecia ninguém bom no mundo, apenas eu, e que a sua mãe estava morrendo, e precisava de remédio. De ia ele mais dinheiro.
O homem sumiu por uns dias. Até que certo dia estava caminhando quando ele chegou do nada no meu lado e disse que sua mãe tinha morrido, respondi “sinto muito”, apertei os passos, ele também, para poder me acompanhar, e me disse novamente que sua mãe havia morrido. Parei e perguntei quanto ele queria, falou o valor por quanto enterrava a mãe, fiz na rua mesmo um cheque, e lhe disse agora bastava.
No dia seguinte almocei no escritório e não sai para caminhar, parecia que tudo estava dando errado. No outro dia, conforme meu novo costume sai para dar uma volta, avistei de longe, o homem de pé, meio escondido me esperando. Dei a volta no sentido contrario, mas um pouco depois ouvi barulhos de sapatos na calçado como se alguém estivesse me seguindo, senti um aperto no coração. Ele conseguiu chegar ao meu lado, dizendo “doutor, doutor”, sem parar perguntei o que ele queria, ele respondeu falando que eu tinha que ajuda-lo, pois ele não tinha ninguém no mundo. Mandei-o arranjar
Um emprego, logo me disse não saber fazer nada. Falei que não tinha que ajuda-lo, ele me agarrou pelo braço, pela primeira vez vi seu rosto cínico e vingativo, dizendo-me que tinha que ajuda-lo pois eu não sabia o que poderia acontecer. Dei a ele dinheiro, nem sei quanto, disse que era a última vez e sai.
Todos os dias ele surgia dizendo que era a última vez, mas nunca era. Eu não queria mais ver aquele sujeito, ele me fazia muito mal, minha pressão subiu mais.
Resolvi tirar férias, na primeira semana foi bem difícil, não sabia o que fazer, porém fui me acostumando, até o meu apetite mudou! Via televisão, dormia depois do almoço, andava em dobro do que antes, estava me tornando mais tranquilo, me sentindo um homem ótimo.
Saindo para caminhar certo dia, vi novamente aquele homem, não sei como ele descobriu meu endereço. Veio me dizendo para não abandona-lo, e que precisava de dinheiro, e que era a última vez. Chegou seu corpo perto do meu, ele era mais alto, forte e ameaçador.
Já estava de caso pensado, a caminha de minha casa. Quando chegamos mandei-o esperar. Fechei a porta, fui até meu quarto, peguei a arma e sai. Acho que quando me viu disse “não faça isso, doutor, só tenho o senhor no mundo”, bom se disse isso mesmo não ouvi, o barulho do tiro não deixou.
Mas logo quando caiu no chão, pude ver o que o medo e a desconfiança talvez na deixavam, um menino com espinhas no rosto, pálido, que nem mesmo o sangue que lhe foi cobrindo o rosto podia esconder.
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