Alguém me liga. É um jornalista, quer uma entrevista. Só a dou se for pago por palavra. Como ele falou que teria que falar com seu editor lhe falei que só poderia lhe dar a seguinte frase de graça: Adote uma árvore e mate uma criança. Falei com o editor e combinamos uma entrevista. O jornalista foi na minha casa, ligou um gravado r e começou a entrevista.
Perguntou-me muitas coisas. Quando comecei a escrever? Disse-lhe que foi aos doze anos, uma tragédia. Ele me acha preocupado demais com a morte, eu não acho. Digo-lhe que tenho cinco mil livros na minha biblioteca e que já os li completamente, já que leio um livro por dia. Falei-lhe da demora de sair minha primeira publicação. Ele diz que me acham um autor pornográfico, não o sou, apenas escrevo sobre miseráveis sem dentes. Me levanto e vou a janela, digo-lhe que também escrevo sobre nobres. Ele pergunta qual minha inspiração. Oras escrevo o livro à maneira de Marcel Proust. Eu estava com um livro na mão o entrevistador vem ate mim e o pede, se espanto quando vê o título: O anão que era negro, padre, corcunda e míope. Me diz que aquele livro foi interpretado de varias maneira, inclusive como pornográfico. Digo-lhe que até nas historias infantis a pornografia. Nossos avós usam palavras bonitas para falar pornografias, mas não deixavam de ser pornografia por isso. Acho que os palavrões estão tendo um efeito catártico, de alívio de tensão e pressão. Não vejo mal nenhum em obscenidades, pornografia. Penso que os homens estão crescendo demais em quantidade. Claro que eu comeria meu pai em formatos de biscoito. Também lhe revelei que odeio escrever. Após isso ele foi embora. Acho que não gostará da entrevista, mas mesmo assim a publicará. O telefone toca, é ele me dizendo que falei duas mil seiscentas e vinte e sete palavras e que me mandariam o cheque. Desliguei o telefone sem me despedir, afinal eu sei tudo e sou perigoso por isso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário