Sou um português, viúvo, biscateiro, me chamo Amadeu Santos. Há algum tempo, fiquei dois dias rondando o depósito de garrafas de Joaquim Gonçalves, estava sem coragem de entrar. Mas um dia estava chovendo muito, estava cansado com a perna doendo do reumatismo, além do mais, minha bronquite crônica estava fazendo com que eu tossisse sem parar. Caminhei pelo meio das pilhas que garrafas, que por sinal estavam empoeiradas, até o fundo do depósito, onde, encontrei Joaquim sentado numa mesa.
Nós quando meninos havíamos emigrado juntos e não nos víamos tinha cinco anos, desde que brigamos por um motivo que nem me lembro mais. Mas Joaquim deve saber o motivo e isso tornou muito constrangedora a minha visita.
Joaquim estava fazendo contas a lápis em um pedaço de papel de embrulho pardo, ele estava calvo e os cabelos restantes estavam grisalhos. Joaquim, de primeira vista não me reconheceu, já não sou mais aquele homem forte e bonito, agora estou magro e abatido, visivelmente tomado pelas privações e pela doença.
Perguntei como Joaquim estava. Não tive coragem de lhe estender o braço. Disse-me que estava indo, também perguntei como iam os negócios, falou que não se queixava deste. Acho que Joaquim estava imaginando o propósito de minha visita. Minhas roupas surradas, meus sapatos velhos, mostravam já que eu não estava bem de vida. Falou também que os negócios não eram mais como antigamente, talvez estivesse prevendo um possível pedido de dinheiro. Deve ter pensado já que somos inimigos, eu não me atreveria a pedir dinheiro.
Logo perguntei se poderia sentar, senti minhas pernas doerem. Disse-me “senta”. Fiquei em silêncio, olhando para o chão, Joaquim voltou a fazer suas contas, mas de vez em quando levantava a cabeça para me observar. Somos da mesma idade, mas ele com certeza dever te visto que não está tão acabado quanto eu, ou até mesmo ter sentido um pouco de pena. Deve ter esperado nosso encontro para vingança, mas se esperou realmente não sei, estava com cara de que não estava com vontade de se vingar.
Sem tirar os olhos do chão perguntei se ele podia me emprestar quinhentos cruzeiros, e também disse que não estava bem de saúde e por isso tive que parar de trabalhar.
Ele perguntou pelo meu filho doutor, perguntou por que não peço a ele. Tive que responder sem exitar, que meu filho tinha morrido. Contei a ele que depois que meu filho Carlos se formou, se casou com uma colega da faculdade, uma baiana, e que os dois haviam se mudado para a terra dela, onde pretendiam trabalhar e que cerca de um ano e meio depois, já com um filho pequeno ele morreu em um acidente de automóvel.
Revelei também que até hoje não conheço meu neto. É acho que nós havíamos brigado por causa do meu filho médico. Joaquim também tinha um filho, Manuel, um rapaz que não havia terminado o ginásio, ignorante, não fazia nada da vida. Nossa amizade foi se terminando conforme Manuel ia pelas ruas vagabundeando e Carlos fazendo o curdo... No dia da formatura de Carlos, Joaquim sentiu-se pessoalmente afrontado e deixou de falar comigo.
— Dinheiro não dá em árvores, disse-me Joaquim, acho que ele teve ter ficado com raiva por ter passado anos e anos invejando um morto. Ainda perguntou por que eu não vendia meu carrinho de mão, mas já tinha vendido. Podia ter dito que um dia precisei vender o carrinho de mão para pagar as despesas de onde fiquei hospitalizado, e que devia seis meses de aluguel do mísero quartinho que alugo e que vivia com uma sopa por dia. Perguntou por que não pedia dinheiro a minha nora, disse que sentia vergonha. Eu realmente estava disposto a agüentar essa humilhação. Questionou-me por pedir tanto dinheiro, já que uma passagem para a Bahia custa menos. Disse que queria dar algum dinheiro ao meu senhorio, ele esteve sendo muito bom comigo.
Acho que nesse momento parte do ressentimento de Joaquim estava se dissipando, por causa da miséria em que estava e da morte de meu filho.
Joaquim foi em direção ao cofre dizendo que não sabia se tinha todo o dinheiro. Nesse momento pensando que ele me daria o dinheiro, comecei a pensar em minha nova vida na Bahia, ao lado de minha nora que não tinha se casado novamente. Fazia anos que minha mente não se enchia de pensamentos felizes. Até minha perna que desde que tinha entrado lá estava doendo muito, parou de doer. Meu coração se tomou de carinho pelo meu amigo, relembrei da viagem que havíamos feito juntos, no navio de emigrantes, sem dinheiro, mas com saúde. Tive tantas lembranças nossas, e boas, achei que deveria dizer algo de bom para ele, já que até aquele momento apenas tinha contado minhas desgraças e pedido dinheiro.
Perguntei como ia Manuel, se ele estava bem. Para que fiz a pergunta, não sei, só sei que ele parou de contar a notas como se estivesse em choque. Ainda jogou o dinheiro para dentro do cofre, e fechou a porta com força. Além de me questionar a respeito da pergunta, com muita mágoa, disse que eu sabia como ele ia, chamando seu filho de “cretino”. Logo protestei dizendo que não sabia de nada.
Disse-me que Manuel era um vagabundo, não fazia nada, dormia de ia e saia á noite, estava indignado por um rapaz de mais de trinta anos ser sustentado pela mãe que pegava dinheiro de Joaquim para dar a seu filho.
Claro que eu não sabia, aliás, pensei ser melhor ter um filho morto. Logo uma lágrima seca feita quase somente de sal escorreu pelo meu rosto, era por meu filho e pelo filho de Joaquim. Quando viu as lágrimas escorrendo em meu rosto, acho que Joaquim ficou meio constrangido. Sem me interessar por mais nada sai caminhando com um pouco de dificuldade, apenas disse adeus. Já tinha saído daquela mesma rua, quando de longe ouvi, os gritos de Joaquim chamando algumas vezes por mim.
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