Tudo começou em um dia onde logo pela manhã já estava dando tudo errado. Resolvi ir para a praia, mas não posso ver o mar, me faz mal, quando estava indo embora abri os olhos por um segundo para atravessas a rua, não vi carro algum, apenas o mar, e na mesma hora vomitei e tive crises de suores e frios. Depois que passou fui para casa, tirei o calção, fiquei nu, estava esgotado, mas de repente a capainha tocou, expiei no olho mágico e vi uma pessoa encapuzada. Logo pensei que era um assaltante. Fiquei apavorado, Lígia tinha ido viajar, estava sozinho, tentei ligar para a polícia, pedi socorro pela janela e ninguém me ouviu ou talvez fingiram. Então fui para a cozinha pegar um facão, abri a porta com ele na mão, era apenas uma freira que saiu correndo e gritando pelo corredor. Claro, não é todos os dias que se vê um homem em sua casa abrir a porta nu e com um facão. Pouco tempo depois a campainha tocou novamente, desta vez era a polícia, me deram uma intimação para depor na segunda, porque a freira deu queixa dizendo que havia sido ameaçada de morte. É... agora não se pode andar nu na própria casa.
Já no domingo, Lígia voltou inesperadamente e me pegou no cinema com uma garota, e lá mesmo, fez escândalo, me encheu de pancadas, acabei levando vinte pontos na cabeça. Tive que ir ao hospital, e lá, mostrei o que ela havia feito, e disse que não dava mais para continuarmos juntos. Nisso ela abriu a bolsa e mostro-me um revolver, e ainda falou que se a traísse novamente, iria me matar.
Toda essa confusão começou antes, quando certo dia, ganhei o premio de poesia da Academia, minha foto saiu no jornal, pensei que faria muito sucesso com as mulheres, mas esse só durou vinte e quatro horas. Foi assim que Lígia apareceu na minha vida, entrou no meu apartamento, dizendo que eu era um ídolo para ela, que não fazia idéia do que ela tinha passado para descobrir meu endereço, e que poderia fazer o que quisesse dela. Na hora fiquei comovido, porque o as minhas realizações estavam sendo ignoradas pelo mundo e de repente surge ela se jogando aos meus pés. Como não tinha para onde ir se instalou no meu apartamento, ela cozinhava para mim, fazia compras com o dinheiro que ganhava costurando para fora. Era boa, mas me obrigava a trabalhar no romance várias horas por dia ditando, enquanto ela digitava rapidamente na máquina, controlava isso, aturei muitas coisas até ela cortar minha cabeça e eu não poder sair fora para não tomar um tiro.então me fingi de broxa, ela logo me arrastou para o médico e pediu para o médico me mandasse fazer todos os exames. Ele ainda perguntou se não tinha sido premiado pela Academia. Quando voltamos para casa após a Lígia dormir tirei o revolver da bolsa dela e fui jogar ele em um bueiro na rua. Quando encontrei um e estava quase jogando, chegou um crioulo querendo me assaltar, quando me levantei ele viu o revolver, deu um passo para trás, mas já era tarde já tinha apertado o gatilho, e ele caiu no chão. Saí correndo para casa dizendo que tinha matado o crioulo. Lígia acordou, disse a ela que podia me matar, mas que iria embora, daí comecei a me vestir. Ela fez um drama dizendo que não era para eu abandoná-la, que fomos feitos um para o outro, que não terminaria o romance sem ela e que ela se mataria se a deixasse. Vi que ela não estava brincando, saí bati a porta, mas ela não saiu para me chamar como das outras vezes que brigávamos. Eu estava preocupado com a morte do crioulo. Andei pelas ruas e entrei num bar para beber, sentei e conversei com umas mulheres.
Tarde da noite voltei para casa, já estava mal da bebida, falei com Lígia, mas ela não me respondeu. Então vi na mesinha de cabaceira um bilhete e um vidro de tranquilizantes vazio. Li o bilhete, e nele ela dizia que me perdoava e que achava difícil que me tornasse bom escritor. Sacudi-a com força, mas não adiantou. Descias escadas correndo a procura de um orelhão, pois meu telefone havia estragado, porém não tinha ficha. Do nada surgiu um assaltante, reconheci, era o crioulo, ele estava vivo! Suplicou para não mata-lo, disse que só queria uma ficha, pois precisava ligar para o pronto-socorro. Ele tinha uma ficha amarrada no fio de náilon, usei de devolvi. Convidei-o para ir até minha casa e dar-me apoio, se chamava Enéas, fez café para nós. O pronto-socorro chegou, disseram que tinham que chamar a polícia porque era caso de suicídio. Enéas disse que tinha que ir embora, me deixando sozinho com o cadáver, talvez porque a polícia iria chegar. Chorei pouco, não por falta de sentimento, minha cabeça naquele momento não permitiu, então, sentei na máquina de escrever e redigi outro bilhete como se fosse de Lígia para deixar no lugar do original, como se ela tivesse dito adeus e como se ela quisesse sair da minha vida para não me atrapalhar. Queimei o bilhete original e joguei-o no vaso sanitário.
Sempre fui gentil, apaixonado, tinha dignidade e consideração por Lígia. Fui à geladeira peguei uma cerveja, e fui para perto do corpo dela sem entender porque motivo algum dia ela escolheu-me, logo um escritor. A perícia chegou fez o que tinha que fazer e levaram o corpo. Fui intimado para depor na delegacia.
Logo imaginei o que sairia nos jornais, falando de uma Linda Mulher que se matou por um Jovem Escritor. Depois saí bebi, e acordei no dia seguinte de ressaca, e fui dar meu depoimento na delegacia, contei tudo, lá um fotógrafo ficou interessado pela história e tirou fotos minhas, perguntou se eu tina foto de Lígia, e ainda falou que seria ele mesmo que iria publicar a matéria. Esperei ansioso, mas quando li, dei graças a Deus por ele ser um jornalista mentiroso, a notícia falava do meu livro, mencionava minhas palavras na delegacia, e ainda inventava uma vida elegante para Lígia, como uma figurinista importante da high socity.
Voltei correndo para casa trabalhar, estava disposto a terminar o meu romance. Eu escreva andava, sentava, e depois voltava a escrever novamente, mas não demorou muito tempo para perceber que as palavras que estava escrevendo eram totalmente idiotas. Com Lígia ali não era assim, não lia as palavras conforme elas iam sendo escritas. Tentei deixar meu pensamento correr, escrever sem ler, mas igual estava sendo tudo uma porcaria.
Mais uns minutos depois, horrorizado percebi, que quem escrevia o romance não era eu e sim Lígia, uma simples costureira que mais parecia escrava deste escritorzinho de merda aqui. Só tive vontade de ir para cama e de morrer, é, mas foi isso mesmo que fiz... Deitei-me.
A campainha tocou, era um homem calvo, muito bem vestido, com um anel de rubi e uma gravata dourada, se apresentou como detetive Jacó, ele pediu para que eu escrevesse o nome de Lígia por extenso em um papel. Escrevi e ele foi embora, e eu voltei para a cama. Estava com fome e triste. A fome me fez levantar, ir no bar beber, o que aliviou a minha dor.
De volta em casa reli a obra irretocável que Lígia havia escrito, acho que ele até poderia ser publicado assim. Por fim me toquei que ela não queria terminar o livro pois isso poderia trazer o fim do nosso envolvimento, o livro era o que nos unia.
A campainha tocou novamente, era Jacó, aquele tal detetive. Chegou e disse que eu estava em maus lençóis, que haviam comprovado que a assinatura de Lígia tinha sido forjada, que a recita dos tranquilizantes estava em meu nome, alegou que quis matar uma freira sem nenhum motivo, mas sim para satisfazer meu gênio violento. É lógico que protestei, disse o que realmente ou, uma alma gentil e doce, e logo fiquei quieto. Disse ainda que tinha o depoimento do médico, alegando que eu e a morta brigamos no hospital, e duas moças na delegacia disseram que me ouviram falar num bar que, em minha vida, já envenenei algumas mulheres.
Disse que poderia explicar tudo, mas o detetive me cortou, me mandando explicar tudo na delegacia. Apenas peguei o livro e descemos juntos, tive que entrar em um carro da polícia.
Mas logo meu pensamento se voltou novamente para o que poderia sair nos jornais, talvez “romancista famoso acusado de crime de morte”. Ah! Esse meu pensamento polifásico.