quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Intestino Grosso

   Alguém me liga. É um jornalista, quer uma entrevista. Só a dou se for pago por palavra. Como ele falou que teria que falar com seu editor lhe falei que só poderia lhe dar a seguinte frase de graça: Adote uma árvore e mate uma criança. Falei com o editor e combinamos uma entrevista. O jornalista foi na minha casa, ligou um gravado r e começou a entrevista.
Perguntou-me muitas coisas. Quando comecei a escrever? Disse-lhe que foi aos doze anos, uma tragédia. Ele me acha preocupado demais com a morte, eu não acho. Digo-lhe que tenho cinco mil livros na minha biblioteca e que já os li completamente, já que leio um livro por dia. Falei-lhe da demora de sair minha primeira publicação. Ele diz que me acham um autor pornográfico, não o sou, apenas escrevo sobre miseráveis sem dentes. Me levanto e vou a janela, digo-lhe que também escrevo sobre nobres. Ele pergunta qual minha inspiração. Oras escrevo o livro à maneira de Marcel Proust. Eu estava com um livro na mão o entrevistador vem ate mim e o pede, se espanto quando vê o título: O anão que era negro, padre, corcunda e míope. Me diz que aquele livro foi interpretado de varias maneira, inclusive como pornográfico. Digo-lhe que até nas historias infantis a pornografia. Nossos avós usam palavras bonitas para falar pornografias, mas não deixavam de ser pornografia por isso. Acho que os palavrões estão tendo um efeito catártico, de alívio de tensão e pressão. Não vejo mal nenhum em obscenidades, pornografia. Penso que os homens estão crescendo demais em quantidade. Claro que eu comeria meu pai em formatos de biscoito. Também lhe revelei que odeio escrever. Após isso ele foi embora. Acho que não gostará da entrevista, mas mesmo assim a publicará. O telefone toca, é ele me dizendo que falei duas mil seiscentas e vinte e sete palavras e que me mandariam o cheque. Desliguei o telefone sem me despedir, afinal eu sei tudo e sou perigoso por isso.

74 degraus

   Chamo-me Elisa e neste momento Tereza deve estar arrumando seus quadros e estátuas de cavalos de que tanto gosta. Toco a campainha; Tereza está surpresa por me ver. Carrego um enorme embrulho. Vi em seus olhos que ela não queria me ver naquele dia. Dou um beijo leve em seu rosto – quase em sua boca. Entrego-lhe o presente que trouxe um cavalo de cerâmica. Peço que tudo volte a ser como era antes, mas Tereza finge não me ouvir. Diz que a culpa é minha de as coisas não estarem como antes.
   Ela está perto de mim, me ponho a pensar em sua pele... A campainha toca, eu abro a porta. Saio correndo quando vejo um homem, Pedro, entrar e abraçar Tereza. Ela diz a ele que eu estou com cólicas. Os dois estão a conversar.
   O pai de Pedro era cavaleiro, mas não competia. Tereza com certeza quer saber coisas sobre ele; ela faz muitas perguntas. Sabe que se Pedro tivesse competido no ultimo ano teria ganhado, pois com Lord Jim, o cavalo de seu marido, qualquer um ganharia.
   Pedro se põe a falar de Lord Jim e agradece Tereza por tê-lo deixado montar nele. Mas ele não conhece Tereza como eu, Elisa. Eu sei que ela o está testando. O marido de Tereza, Alfredo, se acidentou gravemente, montando esse cavalo. Durante muito tempo nós ficamos o visitando no hospital.
   Tereza, provavelmente, vai quere lhe prepara uma comida. Os dois vão para a cozinha conversar. Ela revela que prefere os cães e Pedro não esconde sua paixão pelos cavalos.
   Tereza pega nos braços de Pedro, nas pernas também. Ele não gosta. Ela está entediada e vai mexer na minha bolsa que esqueci na sua casa quando saí correndo porta a fora. Pedro revela que gosta de Tereza, do jeito que um homem honesto gosta de uma mulher.
Pedro confessa que não é rico, não é fazendeiro... Mas Tereza não ouve apenas quer transar com ele. Ela o leva para o quarto e quando cai em si começa a xingá-lo. Acho que ela nunca mais vai querer homem nenhum. Ela ameaça matar os cavalos que são a paixão de Pedro; ele a agarra pelo pescoço, ela desfalece.
   A campainha toca. Sou eu, ele diz que Tereza foi ao armazém. Pedro começa a flertar comigo. Pede para que eu monte nas suas costas como num cavalo. No quarto minha amiga volta a si e nos vê naquela situação. Ela pega uma estatueta de bronze e bate várias vezes na cabeça de Pedro.
    Eu e Tereza nos deitamos no sofá, ela me contou sobre o acontecido. Nós nos amamos.
   Pedro ainda não morrera, estava no chão. Eu me levanto e o golpeio mais vezes, volto para os braços de Tereza.
   A campainha toca é Daniel que recebera um recado meu pedindo para Começa a fazer muitas perguntas para Tereza, ela se irrita e com apenas um olhar nos comunicamos. Pegamos a estátua de bronze e o golpeamos muitas vezes. Colocamos seu corpo junto com o de Pedro. Depois, no final deste dia, descobrimos que é muito fácil matar uma ou duas pessoas. Principalmente se você não tem motivo para isso.




Entrevista

   Sou Gisa, mandei “M” fazer uma entrevista com “H”. “M” deve estar assustada, pois “H” deixa as luzes de sua sala sempre apagadas e, também, não quer dizer seu nome. “H” serve bebidas e pergunta como “M” veio para o Rio de Janeiro. Ela lhe conta que demorou muito para chegar, pois veio de carona. Conta que veio porque seu casamento terminou por causa de outra mulher. Ela “M”, também, conta que estava grávida. “M” conta que durante uma janta com seu marido, a amante aparece, e eles se beijam na frente dela. Ela não se controla e golpeia o peita da mulher várias vezes, foge e tranca-se em seu quarto. Seu marido vai atrás dela e quebra todos os móveis da casa. “M” deve estar falando ainda e contando que ele conseguiu arrombar o quarto que ela estava e que a arrastou pelo chão dando pontapés na barriga. Ela perdeu o filho, um menino. A família de “M” chegou na hora e espancou seu marido. Ela o viu uma única vez mais, quando estava indo embora, mas não quis falar com ele, pois diz que ele ia pedir perdão e dizer que era diferente. “M” não quis mais falar com ele, conheceu muitos homens e diz ser feliz. Diz só se lembrar dele apoiado nas muletas e que ele anda com um punhal para matá-la. Agora a entrevista deve estar chegando ao fim, “M” pede para ligar as luzes da sala. “H” deixa e pergunta se ela não tem medo de ser encontrada pelo seu ex-marido. “M” diz: “não mais... o que está esperando?!”.



Nau Catrineta

   Sou Olímpia e hoje meu sobrinho está completando vinte anos, por isso que estou a declamar a Nau Catrineta aqui no corredor do seu quarto junto as minhas irmãs. De dentro do quarto escuto a voz de um sobrinho a dizer que está acordado. Minha irmã Helena carrega um velho livro. Regina, minha outra irmã, traz uma bandeja com o café da manhã. Julieta, uma cesta com frutas colhidas em nosso pomar. Eu me visto com o traje que usei para representar École dês femmes, de Molière.
   Hoje meu sobrinho lerá o diário secreto, no qual está definida sua missão. Eu estava ansiosa, naquela bela manhã, queria saber se ele já havia escolhido a moça. Ele me disse que sim.
   À noite eu e minhas irmãs daremos uma festa de aniversário para ele, na qual ele nos apresentará a moça escolhida. O nome da moça é Ermelinda. Nós entregamos o diário secreto ao nosso sobrinho e saímos; ele ligou para Ermê.
Eu, Olímpia, e minhas irmãs tiramos dos nossos baús os nossos mais pomposos vestidos. Nosso sobrinho deve estar muito pensativo após ver sua missão.
Agora já é noite e, meu querido sobrinho, vê o carro de Ermê se aproximando de sua casa. Ele a recebe na porta. Ela diz estar com medo, acha a casa sombria. Ele leva Ermê para a sala onde eu e minhas irmãs estamos. Moça muito carinhosa e educada.
Nosso sobrinho nos dá o aviso de que sua missão será cumprida hoje mesmo. A janta ocorre com alegria e muitas conversas. Ermê gosta de nós. Mas quando as histórias começam a ficar mais sombrias ela fica calada.
Eu junto com minhas irmãs resolvo ir para a capela e deixar nosso sobrinho e Ermê a sós.
   Após nós sairmos da sala os dois ficam a conversar e a se beijar. Nosso sobrinho leva uma garrafa de champagne para os dois. Sentam-se lado a lado; ele tira do bolso um frasco negro que minha irmã Helena havia entregado para ele pela manhã. Ele recebera esse frasco, pois estava escrito no diário secreto que sua missão é a de escolher e sacrificar uma pessoa no seu vigésimo aniversário. Mata-la e depois comê-la. E para que Ermê não sofra Helena lhe entregou esse frascoque tem um poderoso veneno.
   Ele esperto diz para Ermê que o frasco contêm o filtro do amor. Põe o veneno nos copos. Ela leva a taça à boca; a morte é instantânea.
Eu e minhas irmãs orgulhosas entramos na sala, vimos o corpo. Todas as partes serão aproveitadas, dos ossos até as carnes.  Ao final de tudo nós nos reunimos à mesa onde cada um comia um pedaço de carne e nosso sobrinho recebeu o Anel que ficava no dedo indicador de minha irmã Julieta. Agora ele é o chefe da família.


O campeonato

   Chamo-me Milor Palor, sou o último campeão do campeonato de conjunção carnal. Este campeonato estava proibido por não se saber os efeitos que fazia no desenvolvimento psicossocial dos jovens, até que uma tarde na sauna resolveram me desafiar. O desafiante chamava-se Mauricio Chango, um ser sem nenhum cartel para me desafiar. Desafiou-me na frente de todos, Gorki, o corretor autorizado; M. Ribas,reserva de segunda; o atacadista Zamir Jacob; O médico Axelrud; o executivo J.R., meu contratante. Disse: “faço mais do que isso.”. Como ele pensa que pode fazer mais do que eu? Mais do que quatorze conjunções carnais em vinte e quatro horas? Não me espantei, sou um campeão e o destino de todos campeões é ser desafiado. Confesso que não queria ser desafiado por ele, além do mais para acontecer esse concurso era preciso uma supervisão o que não tinha, pois A Confederação Nacional Desportiva de Conjunção Carnal estava em recesso.

   J.R., o executivo, garantiu que financiaria todo o evento e ofereceu-me uma bolsa de quinhentos mil. Não pude resistir, aceitei. J.R. mandou chamar Açoreano, que seria o arbitro do concurso, secretamente. Ele chegou todo de preto e com dois assistentes. Disse: “minhas decisões são incontestáveis, eu sou o Açoreano, comigo ninguém discute, eu sou a Lei e o Juiz.”

   Nos falou das regras do concurso. Às doze horas de sábado às doze horas de domingo quem realizar o maior número de conjunções carnais será o vencedor, eu e meu desafiante ficaríamos cada um em um quarto, assistidos por um dos fiscais do Açoreano em todos os momentos do dia.Só poderíamos utilizar como estimulantes extras alguns recursos, entre eles, recursos audiovisuais. Não poderíamos ter a colaboração de terceiros; além dos fiscais eda parceira que poderia ser trocada a cada conjunção ninguém mais poderia entrar no quarto. O Açoreano, por ser o fiscal, poderia entrar na hora que quisesse nos quartos. Só seria aceita e computada a conjunção que obedecesse a todos estes quesitos: introdução vaginal do pênis, seguida de emissio seminis, também intra vas, mínimo de meio centímetro cúbico. Qualquer infração que cometêssemos poderia nos eliminar.

   Açoreano alugou um hotel na orla marítima, o Aldebaran, para a realização do campeonato. Ele instalou equipamentos de transmissão de TV em circuito fechado; no living principal foram colocados  dois vídeos para que os apostadores pudessem acompanhar os principais lances da porfia.

   As dez horas da manhã de sábado eu, Parlo, e meu desafiante, Chango, estávamos nos apresentando. Tínhamos que escolher um assessor; eu escolhi Ursinho Meireles e Chango indicou Gorki. Nossos assessores ficaram incubidos de conseguir as parceiras que queríamos, organizar os recursos audiovisuais, cuidar de nossa alimentação e providenciar entretenimento.

   Ursinho Meireles, meu assessor, distribuiuas informações sobre minhas parceiras, eram quinze, todas com as medidas regulares estabelecidas pela Sociedade Nacional de Normas Biométricas, ou seja, perfeitas. A idade média das minhas parceiras era dezoito anos e seis meses; a altura média era de 1,66 metros e o peso médio de 51,2 quilos. Sobre as parceiras de Maurição não sabíamos nada, era surpresa.
Eu e Maurição desfilamos pelados no living principal do Aldebaran e nos postamos em pedestais logo após para que os apostadores pudessem nos examinar e ver nossos sinais de aptidão e vocação. Ouvíamos muitos comentários sobre nossos corpos.

   Gorki, logo após sairmos do living, anunciou  que Maurição usaria muitos recursos audiovisuais. Segundo ele a correlação estímulo-resposta desses elementos seria um excelente resultado e eu não conseguiria acompanhar o ritmo de Maurição. Logo após, dói a vez de meu assessor anunciar nossa tática que era:  durante as vinte e quatro horas, dormiria durante oito horas; minha alimentação seria de ostras com limão, carne crua, leite gelado e ovos de tucanos quentes; e finalmente, entre uma conjunção e outra, eu meditaria.

Às doze em ponto começou nosso confronto. Eu terminei minha primeira conjunção em 45 segundos e meu volume seminal foi exato. Meu concorrente terminou a sua em um minuto e doze segundos e seu volume seminal de um centímetro cúbico.  Maurição começou sua segunda conjunção  treze minutos e 48 segundos após a sua primeira; eu, Palor, comecei a minha uma hora depois da primeira, diminui meu tempo e mantive o volume seminal.

   Às dezoito horas meu concorrente já tinha completado oito conjunções e eu, quatro. Maurição já estava levando muito tempo para ejacular, dez minutos ou mais. Então falei para os apostadores: “E vou ganhar esse campeonato. Vocês entendem que todos os campeonatos buscam apenas preservar a nossa natureza animal? Não podemos deixar de ser um animal. Não somos um inseto! Somos um animal! Ouviram, apostadores? Estamos presenciando o grande instante final da conjunção carnal. O formigueiro nos espera. Vocês me entendem?”

   Eu ganhei o campeonato, efetuei quinze conjunções carnais nas vinte e quatro horas, bati meu próprio recorde. Meu concorrente completou apenas dez conjunções.

  Após esse dia os campeonatos foram oficializados, mas eu nunca mais participei de nenhum e, meu recorde nunca foi batido. O esporte deixou de ser praticado há algum tempo. Ninguém mais se emociona com ele, aqui no formigueiro.

O Pedido

      Sou um português, viúvo, biscateiro, me chamo Amadeu Santos. Há algum tempo, fiquei dois dias rondando o depósito de garrafas de Joaquim Gonçalves, estava sem coragem de entrar. Mas um dia estava chovendo muito, estava cansado com a perna doendo do reumatismo, além do mais, minha bronquite crônica estava fazendo com que eu tossisse sem parar. Caminhei pelo meio das pilhas que garrafas, que por sinal estavam empoeiradas, até o fundo do depósito, onde, encontrei Joaquim sentado numa mesa.
       Nós quando meninos havíamos emigrado juntos e não nos víamos tinha cinco anos, desde que brigamos por um motivo que nem me lembro mais. Mas Joaquim deve saber o motivo e isso tornou muito constrangedora a minha visita.
       Joaquim estava fazendo contas a lápis em um pedaço de papel de embrulho pardo, ele estava calvo e os cabelos restantes estavam grisalhos. Joaquim, de primeira vista não me reconheceu, já não sou mais aquele homem forte e bonito, agora estou magro e abatido, visivelmente tomado pelas privações e pela doença.
        Perguntei como Joaquim estava. Não tive coragem de lhe estender o braço. Disse-me que estava indo, também perguntei como iam os negócios, falou que não se queixava deste. Acho que Joaquim estava imaginando o propósito de minha visita. Minhas roupas surradas, meus sapatos velhos, mostravam já que eu não estava bem de vida. Falou também que os negócios não eram mais como antigamente, talvez estivesse prevendo um possível pedido de dinheiro. Deve ter pensado já que somos inimigos, eu não me atreveria a pedir dinheiro.
       Logo perguntei se poderia sentar, senti minhas pernas doerem. Disse-me “senta”. Fiquei em silêncio, olhando para o chão, Joaquim voltou a fazer suas contas, mas de vez em quando levantava a cabeça para me observar. Somos da mesma idade, mas ele com certeza dever te visto que não está tão acabado quanto eu, ou até mesmo ter sentido um pouco de pena. Deve ter esperado nosso encontro para vingança, mas se esperou realmente não sei, estava com cara de que não estava com vontade de se vingar.
       Sem tirar os olhos do chão perguntei se ele podia me emprestar quinhentos cruzeiros, e também disse que não estava bem de saúde e por isso tive que parar de trabalhar.
       Ele perguntou pelo meu filho doutor, perguntou por que não peço a ele. Tive que responder sem exitar, que meu filho tinha morrido. Contei a ele que depois que meu filho Carlos se formou, se casou com uma colega da faculdade, uma baiana, e que os dois haviam se mudado para a terra dela, onde pretendiam trabalhar e que cerca de um ano e meio depois, já com um filho pequeno ele morreu em um acidente de automóvel.
       Revelei também que até hoje não conheço meu neto. É acho que nós havíamos brigado por causa do meu filho médico. Joaquim também tinha um filho, Manuel, um rapaz que não havia terminado o ginásio, ignorante, não fazia nada da vida. Nossa amizade foi se terminando conforme Manuel ia pelas ruas vagabundeando e Carlos fazendo o curdo... No dia da formatura de Carlos, Joaquim sentiu-se pessoalmente afrontado e deixou de falar comigo.
       — Dinheiro não dá em árvores, disse-me Joaquim, acho que ele teve ter ficado com raiva por ter passado anos e anos invejando um morto. Ainda perguntou por que eu não vendia meu carrinho de mão, mas já tinha vendido. Podia ter dito que um dia precisei vender o carrinho de mão para pagar as despesas de onde fiquei hospitalizado, e que devia seis meses de aluguel do mísero quartinho que alugo e que vivia com uma sopa por dia. Perguntou por que não pedia dinheiro a minha nora, disse que sentia vergonha. Eu realmente estava disposto a agüentar essa humilhação. Questionou-me por pedir tanto dinheiro, já que uma passagem para a Bahia custa menos. Disse que queria dar algum dinheiro ao meu senhorio, ele esteve sendo muito bom comigo.
       Acho que nesse momento parte do ressentimento de Joaquim estava se dissipando, por causa da miséria em que estava e da morte de meu filho.
       Joaquim foi em direção ao cofre dizendo que não sabia se tinha todo o dinheiro. Nesse momento pensando que ele me daria o dinheiro, comecei a pensar em minha nova vida na Bahia, ao lado de minha nora que não tinha se casado novamente. Fazia anos que minha mente não se enchia de pensamentos felizes. Até minha perna que desde que tinha entrado lá estava doendo muito, parou de doer. Meu coração se tomou de carinho pelo meu amigo, relembrei da viagem que havíamos feito juntos, no navio de emigrantes, sem dinheiro, mas com saúde. Tive tantas lembranças nossas, e boas, achei que deveria dizer algo de bom para ele, já que até aquele momento apenas tinha contado minhas desgraças e pedido dinheiro.
       Perguntei como ia Manuel, se ele estava bem. Para que fiz a pergunta, não sei, só sei que ele parou de contar a notas como se estivesse em choque. Ainda jogou o dinheiro para dentro do cofre, e fechou a porta com força. Além de me questionar a respeito da pergunta, com muita mágoa, disse que eu sabia como ele ia, chamando seu filho de “cretino”. Logo protestei dizendo que não sabia de nada.
       Disse-me que Manuel era um vagabundo, não fazia nada, dormia de ia e saia á noite, estava indignado por um rapaz de mais de trinta anos ser sustentado pela mãe que pegava dinheiro de Joaquim  para dar a seu filho.
       Claro que eu não sabia, aliás, pensei ser melhor ter um filho morto. Logo uma lágrima seca feita quase somente de sal escorreu pelo meu rosto, era por meu filho e pelo filho de Joaquim. Quando viu as lágrimas escorrendo em meu rosto, acho que Joaquim ficou meio constrangido. Sem me interessar por mais nada sai caminhando com um pouco de dificuldade, apenas disse adeus. Já tinha saído daquela mesma rua, quando de longe ouvi, os gritos de Joaquim chamando algumas vezes por mim.

Agruras de um jovem escritor

     Tudo começou em um dia onde logo pela manhã já estava dando tudo errado. Resolvi ir para a praia, mas não posso ver o mar, me faz mal, quando estava indo embora abri os olhos por um segundo para atravessas a rua, não vi carro algum, apenas o mar, e na mesma hora vomitei e tive crises de suores e frios. Depois que passou fui para casa, tirei o calção, fiquei nu, estava esgotado, mas de repente a capainha tocou, expiei no olho mágico e vi uma pessoa encapuzada. Logo pensei que era um assaltante. Fiquei apavorado, Lígia tinha ido viajar, estava sozinho, tentei ligar para a polícia, pedi socorro pela janela e ninguém me ouviu ou talvez fingiram. Então fui para a cozinha pegar um facão, abri a porta com ele na mão, era apenas uma freira que saiu correndo e gritando pelo corredor. Claro, não é todos os dias que se vê um homem em sua casa abrir a porta nu e com um facão. Pouco tempo depois a campainha tocou novamente, desta vez era a polícia, me deram uma intimação para depor na segunda,  porque a freira deu queixa dizendo que havia sido ameaçada de morte. É... agora não se pode andar nu na própria casa.
            Já no domingo, Lígia voltou inesperadamente e me pegou no cinema com uma garota, e lá mesmo, fez escândalo, me encheu de pancadas, acabei levando vinte pontos na cabeça. Tive que ir ao hospital, e lá, mostrei o que ela havia feito, e disse que não dava mais para continuarmos juntos. Nisso ela abriu a bolsa e mostro-me um revolver, e ainda falou que se a traísse novamente, iria me matar.
            Toda essa confusão começou antes, quando certo dia, ganhei o premio de poesia da Academia, minha foto saiu no jornal, pensei que faria muito sucesso com as mulheres, mas esse só durou vinte e quatro horas. Foi assim que Lígia apareceu na minha vida, entrou no meu apartamento, dizendo que eu era um ídolo para ela, que não fazia idéia do que ela tinha passado para descobrir meu endereço, e que poderia fazer o que quisesse dela. Na hora fiquei comovido, porque o as minhas realizações estavam sendo ignoradas pelo mundo e de repente surge ela se jogando aos meus pés. Como não tinha para onde ir se instalou no meu apartamento, ela cozinhava para mim, fazia compras com o dinheiro que ganhava costurando para fora. Era boa, mas me obrigava a trabalhar no romance várias horas por dia ditando, enquanto ela digitava rapidamente na máquina, controlava isso, aturei muitas coisas até ela cortar minha cabeça e eu não poder sair fora para não tomar um tiro.então me fingi de broxa, ela logo me arrastou para o médico e pediu para o médico me mandasse fazer todos os exames. Ele ainda perguntou se não tinha sido premiado pela Academia. Quando voltamos para casa após a Lígia dormir tirei o revolver da bolsa dela e fui jogar ele em um bueiro na rua. Quando encontrei um e estava quase jogando, chegou um crioulo querendo me assaltar, quando me levantei ele viu o revolver, deu um passo para trás, mas já era tarde já tinha apertado o gatilho, e ele caiu no chão. Saí correndo para casa dizendo que tinha matado o crioulo. Lígia acordou, disse a ela que podia me matar, mas que iria embora, daí comecei a me vestir. Ela fez um drama dizendo que não era para eu abandoná-la, que fomos feitos um para o outro, que não terminaria o romance sem ela e que ela se mataria se a deixasse. Vi que ela não estava brincando, saí bati a porta, mas ela não saiu para me chamar como das outras vezes que brigávamos. Eu estava preocupado com a morte do crioulo. Andei pelas ruas e entrei num bar para beber, sentei e conversei com umas mulheres.
            Tarde da noite voltei para casa, já estava mal da bebida, falei com Lígia, mas ela não me respondeu. Então vi na mesinha de cabaceira um bilhete e um vidro de tranquilizantes vazio. Li o bilhete, e nele ela dizia que me perdoava e que achava difícil que me tornasse bom escritor. Sacudi-a com força, mas não adiantou. Descias escadas correndo a procura de um orelhão, pois meu telefone havia estragado, porém não tinha ficha. Do nada surgiu um assaltante, reconheci, era o crioulo, ele estava vivo! Suplicou para não mata-lo, disse que só queria uma ficha, pois precisava ligar para o pronto-socorro. Ele tinha uma ficha amarrada no fio de náilon, usei de devolvi. Convidei-o para ir até minha casa e dar-me apoio, se chamava Enéas, fez café para nós. O pronto-socorro chegou, disseram que tinham que chamar a polícia porque era caso de suicídio. Enéas disse que tinha que ir embora, me deixando sozinho com o cadáver, talvez porque a polícia iria chegar. Chorei pouco, não por falta de sentimento, minha cabeça naquele momento não permitiu, então, sentei na máquina de escrever e redigi outro bilhete como se fosse de Lígia para deixar no lugar do original, como se ela tivesse dito adeus e como se ela quisesse sair da minha vida para não me atrapalhar. Queimei o bilhete original e joguei-o no vaso sanitário.
Sempre fui gentil, apaixonado, tinha dignidade e consideração por Lígia. Fui à geladeira peguei uma cerveja, e fui para perto do corpo dela sem entender porque motivo algum dia ela escolheu-me, logo um escritor. A perícia chegou fez o que tinha que fazer e levaram o corpo. Fui intimado para depor na delegacia.
Logo imaginei o que sairia nos jornais, falando de uma Linda Mulher que se matou por um Jovem Escritor. Depois saí bebi, e acordei no dia seguinte de ressaca, e fui dar meu depoimento na delegacia, contei tudo, lá um fotógrafo ficou interessado pela história e tirou fotos minhas, perguntou se eu tina foto de Lígia, e ainda falou que seria ele mesmo que iria publicar a matéria. Esperei ansioso, mas quando li, dei graças a Deus por ele ser um jornalista mentiroso, a notícia falava do meu livro, mencionava minhas palavras na delegacia, e ainda inventava uma vida elegante para Lígia, como uma figurinista importante da high socity.
Voltei correndo para casa trabalhar, estava disposto a terminar o meu romance. Eu escreva andava, sentava, e depois voltava a escrever novamente, mas não demorou muito tempo para perceber que as palavras que estava escrevendo eram totalmente idiotas. Com Lígia ali não era assim, não lia as palavras conforme elas iam sendo escritas. Tentei deixar meu pensamento correr, escrever sem ler, mas igual estava sendo tudo uma porcaria.
Mais uns minutos depois, horrorizado percebi, que quem escrevia o romance não era eu e sim Lígia, uma simples costureira que mais parecia escrava deste escritorzinho de merda aqui. Só tive vontade de ir para cama e de morrer, é, mas foi isso mesmo que fiz... Deitei-me.
A campainha tocou, era um homem calvo, muito bem vestido, com um anel de rubi e uma gravata dourada, se apresentou como detetive Jacó, ele pediu para que eu escrevesse o nome de Lígia por extenso em um papel. Escrevi e ele foi embora, e eu voltei para a cama. Estava com fome e triste. A fome me fez levantar, ir no bar beber, o que aliviou a minha dor.
De volta em casa reli a obra irretocável que Lígia havia escrito, acho que ele até poderia ser publicado assim. Por fim me toquei que ela não queria terminar o livro pois isso poderia trazer o fim do nosso envolvimento, o livro era o que nos unia.
A campainha tocou novamente, era Jacó, aquele tal detetive. Chegou e disse que eu estava em maus lençóis, que haviam comprovado que a assinatura de Lígia tinha sido forjada, que a recita dos tranquilizantes estava em meu nome, alegou que quis matar uma freira sem nenhum motivo, mas sim para satisfazer meu gênio violento. É lógico que protestei, disse o que realmente ou, uma alma gentil e doce, e logo fiquei quieto. Disse ainda que tinha o depoimento do médico, alegando que eu e a morta brigamos no hospital, e duas moças na delegacia disseram que me ouviram falar num bar que, em minha vida, já envenenei algumas mulheres.
Disse que poderia explicar tudo, mas o detetive me cortou, me mandando explicar tudo na delegacia. Apenas peguei o livro e descemos juntos, tive que entrar em um carro da polícia.
Mas logo meu pensamento se voltou novamente para o que poderia sair nos jornais, talvez “romancista famoso acusado de crime de morte”. Ah! Esse meu pensamento polifásico.








O outro

       Todo dia o carro parava na frente do prédio, bem cedo, eu saia dava alguns passos e estava dentro do escritório. Passava minhas manhãs dando telefonemas, lendo memorandos, ditando cartas. Mas sempre quando chegava o horário do almoça parecia que nunca tinha feito nada de útil. Almoçava em pouco tempo, depois logo voltava para o escritório, para voltar para o telefone, ás vezes mais de cinquenta vezes, não dava conta de assinar todas as cartas, muitas vezes levei trabalho para casa, para produzir melhor, longe do telefone.
       Certo dia comecei a sentir taquicardia. Neste mesmo dia, na calçada uma pessoa me acompanhou até a porta do escritório pedindo a minha ajuda, somente dei-lhe um pouco de dinheiro e entrei. Logo após estava no telefone e senti uma dor, meu coração disparou, deitei no sofá, pois quase desmaiei. Resolvi nessa mesma tarde ir ao cardiologista, que me fez exames e disse que tinha que diminuir o peso e mudar de vida, me prescreveu um regime alimentar e mandou que eu caminhasse duas vezes ao dia. Falou para mim parar de trabalhar por alguns dias, comentei que seria impossível.
       Já no dia seguinte na hora do almoço fui dar uma caminhada, e aquela mesma pessoa me pediu dinheiro, era um homem forte de cabelos castanhos compridos, dei-lhe o dinheiro e continuei. O médico havia me falado que se eu não me cuidasse eu poderia a qualquer momento ter um enfarte. À noite tomei dois tranqüilizantes, que não me deixaram menos tenso e nem menos irritado, não sabia o que fazer não tinha levado trabalho para casa. Logo após o jantar fui fazer a minha caminhada. No horário de almoço do outro dia, aquele homem apareceu pedindo dinheiro, perguntei se seria assim todo dia, ele respondeu dizendo que não conhecia ninguém bom no mundo, apenas eu, e que a sua mãe estava morrendo, e precisava de remédio. De ia ele mais dinheiro.
       O homem sumiu por uns dias. Até que certo dia estava caminhando quando ele chegou do nada no meu lado e disse que sua mãe tinha morrido, respondi “sinto muito”, apertei os passos, ele também, para poder me acompanhar, e me disse novamente que sua mãe havia morrido. Parei e perguntei quanto ele queria, falou o valor por quanto enterrava a mãe, fiz na rua mesmo um cheque, e lhe disse agora bastava.
       No dia seguinte almocei no escritório e não sai para caminhar, parecia que tudo estava dando errado. No outro dia, conforme meu novo costume sai para dar uma volta, avistei de longe, o homem de pé, meio escondido me esperando. Dei a volta no sentido contrario, mas um pouco depois ouvi barulhos de sapatos na calçado como se alguém estivesse me seguindo, senti um aperto no coração. Ele conseguiu chegar ao meu lado, dizendo “doutor, doutor”, sem parar perguntei o que ele queria, ele respondeu falando que eu tinha que ajuda-lo, pois ele não tinha ninguém no mundo. Mandei-o arranjar
Um emprego, logo me disse não saber fazer nada. Falei que não tinha que ajuda-lo, ele me agarrou pelo braço, pela primeira vez vi seu rosto cínico e vingativo, dizendo-me que tinha que ajuda-lo pois eu não sabia o que poderia acontecer. Dei a ele dinheiro, nem sei quanto, disse que era a última vez e sai.
       Todos os dias ele surgia dizendo que era a última vez, mas nunca era. Eu não queria mais ver aquele sujeito, ele me fazia muito mal, minha pressão subiu mais.
       Resolvi tirar férias, na primeira semana foi bem difícil, não sabia o que fazer, porém fui me acostumando, até o meu apetite mudou! Via televisão, dormia depois do almoço, andava em dobro do que antes, estava me tornando mais tranquilo, me sentindo um homem ótimo.
       Saindo para caminhar certo dia, vi novamente aquele homem, não sei como ele descobriu meu endereço. Veio me dizendo para não abandona-lo, e que precisava de dinheiro, e que era a última vez. Chegou seu corpo perto do meu, ele era mais alto, forte e ameaçador.
       Já estava de caso pensado, a caminha de minha casa. Quando chegamos mandei-o esperar. Fechei a porta, fui até meu quarto, peguei a arma e sai. Acho que quando me viu disse “não faça isso, doutor, só tenho o senhor no mundo”, bom se disse isso mesmo não ouvi, o barulho do tiro não deixou.
       Mas logo quando caiu no chão, pude ver o que o medo e a desconfiança talvez na deixavam, um menino com espinhas no rosto, pálido, que nem mesmo o sangue que lhe foi cobrindo o rosto podia esconder.
      


Dia dos namorados

   Eu estava em meu apartamento com uma loira ricaça, grãn fina, quando advogado Medeiros me ligou desesperado pedindo minha ajuda. Seu cliente, J.J Santos era banqueiro e estava com problemas. Deixei claro que custaria caro, ele concordou. Medeiros me contou o que tinha acontecido. J,J Santos estava em uma festa de noivado quando resolveu ir embora. Não estava a fim de voltar para a casa para ficar com sua mulher e ver filmes dublados e saiu de carro pela cidade quando avistou uma mulher muito bonita na rua. Seu nome era Viveca e ela disse que tinha apenas 16 anos. Mandou ela entrar no carro e foram ao hotel mais chique da cidade e ficaram na suíte presidencial. Enquanto ela tomava um guaraná, ele foi ao banheiro. Quando retornou, a moça estava nua, deitada de bruços. O banqueiro deitou ao seu lado, quando Viveca vira-se de barriga pra cima. J.J Santos apavorou-se ao se deparar com um pênis. Viveca era um homem. Do nada, ele pulou da cama apavorado. Começou a vestir-se quando Viveca tira uma gilete do bolso e começa a se cortar por J.J acusá-la de furto. Ameaçou se matar caso Santos não pagasse quinhentos cruzeiros. Foi ai que Medeiros me ligou pedindo ajuda. Fui ao encontro dos dois na rua, dizendo que estava com o dinheiro prometido. Arranquei J.J do carro e falei que levaria Viveca para buscar o dinheiro. Mas a levei direto para a delegacia. Ela contou uma história totalmente diferente da do meu cliente dizendo que J.J não havia lhe pagado. Então tive que tomar uma atitude. Grudei-me nos cabelos dela e arranquei a peruca. No mesmo momento, voou 4 notas de quinhentos cruzeiros do meu cliente. No fim, Viveca foi presa e eu fui terminar com meu trabalho. Fui ao hotel e peguei os papéis em que mostrava o registro de meu cliente com Viveca no mesmo. Fiz a transferência para meu nome para proteger meu cliente. Voltei para casa, com as 4 notas de quinhentos e uma Mercedes na garagem. Mas não estava feliz, pois a loira não estava mais lá, e sabia que nunca mais a veria.

Passeio Noturno (parte II)

Estava indo para casa, uma mulher em um carro buzinando inconstantemente encostou ao lado do meu, claro abaixei os vidros para ouvir o que lê estava dizendo. Perguntou se eu não estava conhecendo os outros, mas realmente não a conhecia, sorri, até que os carros atrás dos nossos começaram e buzinar e, assim, ela esticou o braço e me entregou um bilhete com seu nome, que era Ângela e seu telefone. Cheguei em casa, mas logo saí como sempre.
Logo no outro dia liguei, uma mulher, talvez empregada me atendeu, perguntei por Ângela, porém ela não estava. Logo perguntei se esta era estudante, a mulher me informou de que esta era artista. Mais tarde liguei, Ângela me atendeu, informei a ela quem era.
Ela morava na curva do Cantagalo, estava na porta me esperando, além de estar diferente, com uma maquiagem pesada, que a deixava com rosto de mais velha. Perguntei de que ela fazia aulas, me respondeu que era de impostação de voz. Perguntei também se era atriz, respondeu que sim, de cinema, disse que gostava muito, só havia feito um filme que ainda estava em fase de montagem, ainda falou que estava começando, que tinha apenas vinte anos. Quando estava no carro parecia ter uns vinte e cinco. Quando chagamos ao restaurante, procurei ver se tinha alguém conhecido, ninguém me conhecia. Ângela pediu um martíni, eu disse que só bebia as vezes.
       Ainda respondi as duas hipóteses por ela ter me dado aquele bilhete. A primeira e que ela tivesse se interessado por mim e escreveu aquele bilhete correndo em um pedaço de papel, já que foi difícil de entender os números. A segunda hipótese é que ela fosse uma puta com a bolsa cheia de bilhetes com seu nome e telefone, e sai distribuindo para caras com carrões, cara de rico e de idiota. Mas logo ela perguntou qual a que eu escolheria, logo disse que era a segunda Dava para ver que estava preocupada, no entanto disse que eu mesmo tinha dito que o bilhete estava escrito com uma letra ilegível. Eu, lhe respondi que uma puta inteligente faria isso para enganar seus fregueses.
Ângela me perguntou se eu acreditaria se ela dissesse que a primeira hipótese é verdadeira, disse que não me interessava. Aquela situação eu e ela dentro do restaurante me aborreceu, mas depois ficou bom. Perguntou o que fazia, disse que tenho  cara de industrial, logo falei que era traficante, ela somente falou que não acreditava em nenhuma palavra que eu disse. Depois desmenti, mandei-a olhar para meu rosto, falou que meu rosto parecia o de um retrato antigo, de um desconhecido, pensava o mesmo do dela.
       Fomos embora, no carro disse que iria deixá-la antes da casa, expliquei que meu cunhado morava no mesmo edifício dela e que ele conhecia meu carro. Perguntou se nos veríamos, disse que era difícil. Ângela desceu do carro, foi andando, eu não podia deixar ela viva, de todas as outras pessoas era a única que tinha visto meu rosto.
       Apaguei as luzes, acelerei e bati com o lado esquerdo do carro. O corpo foi um pouca para frente, ouvi o som da frágil estrutura dela se esmigalhando, mas em seguida para finalizar, passei por cima dela com a roda de trás.
       Cheguei em casa, novamente minha mulher estava assistindo televisão. Perguntou se estava muito nervoso, pois havia demorado. Apenas respondi que estava e que iria dormir, porque o dia seguinte seria  terrível na companhia.

Passeio Noturno (parte I)

      
       Estava com minha pasta cheia de papeis importantes quando cheguei em casa, vi minha mulher na cama, com o copo de uísque ao seu lado na mesa de cabeceia, estava jogando paciência. Sem olhar na minha cara, disse que estava com cara de cansado, que precisava aprender a relaxar, beber um uísque e ir trocar e roupa.
       Depois fui para a biblioteca, gosto muito de lá, lugar da casa onde vou e ainda fico sozinho sem fazer nada. Logo após minha mulher entrou na sala, com seu copo na mão me perguntando se poderia já servir o jantar.
       Fomos jantar, meus filhos já crescido me pediram dinheiro, cada um em um determinado momento. Logo após resolvi dar uma volta de carro, convidei minha mulher sabendo, é claro, que ela iria recusar. Respondeu-me dizendo que não achava em graça passear de carro todas as noites, mas pelo preço que ele tinha custado, tinha era que ser usado.
       Para sair tive que tirar os carros dos meus filhos da garagem para depois tirar o meu. Até fiquei meio irritado, mas entrei no carro e senti sua potência, logo me acalmei. Saí sem rumo, estava a procura de uma rua deserta, sem movimento. Consegui chegar a uma rua muito mal iluminada, cheia de árvores, achei que era o lugar ideal. Não sabia se seria homem ou mulher, por um tempo fiquei tendo, não aparecia ninguém, eu até gostava, depois sempre o alivio é maior. Avistei de longe uma mulher, caminhando apressadamente, estava vestindo saia e blusa além de carregar um embrulho. Havia na rua de metros em metros, árvores, o que deveria com muito cuidado ser inspecionado. Então resolvi apagar as luzes do carro e acelerar. Quando subi o meio-fio é que ela percebeu que estava indo para cima dela. Bati nela no meio das duas pernas, acima do joelho, mais sobre a esquerda, consegui ouvir o barulho do impacto e dos seus ossos partindo, virei rapidamente para a esquerda, passei raspando por uma árvore, os pneus cantaram de volta ao asfalto. O motor do meu carro era bom, de longe, ainda vi o corpo da mulher em cima de um muro, desses baixinhos, todo cheio de sangue.
       Em casa, na garagem revistei o carro. Passei a mão em sua frente, estava orgulhoso, sem nenhuma marca. A minha habilidade para lidar com essas máquinas poucos tem. Quando entrei estavam vendo televisão. Minha mulher perguntou sem desviar os olhos da TV se já estava mais calmo depois da voltinha. Apenas disse que iria dormir, dei boa noite á todos, e respondi que no dia seguinte iria ter um terrível dia na companhia.

Botando pra quebrar

   Eu estava desempregado desde que sai da cadeia. Vivendo as custas de minha mulher, Mariazinha, que era costureira e trabalhava o dia inteiro na frente da máquina. Ganhava pouco, mal dava para ela e para a filha. Ninguém queria me empregar sabendo da minha ficha corrida. Porquinho queria que eu fosse para a Bolívia apanhar uma muamba para ele, mas se os policiais me pegassem, eu voltaria pro xadrez com mais 20 anos. Nesse mesmo dia, quando chego em casa, Mariazinha me disse que queria ter uma conversa séria comigo. Falou que a garotinha precisava de um pai e que eu ficava sem aparecer em casa e me pediu permissão para arrumar outro homem. A única coisa que eu falei foi “você esta certa”. Porque ela realmente estava. Comecei a procurar emprego quando encontrei um amigo meu que disse que sabe de alguém que precise de um segurança de boate. No mesmo instante, ele me levou pra conhecer o dono da boate, que me perguntou se eu já havia trabalhado nisso antes. Respondi que sim porque já tinha sido leão de boate em Copacabana. O dono falou que não queria moleza, e que não era pra deixar entrar bicha louca, crioulo e traficante. Fui correndo contar para Mariazinha que havia conseguido um emprego, mas ela nem deixou eu falar. Logo disse que já tinha arranjado um homem decente e trabalhador. Falou que Hermenegildo era um homem muito bom, e que queria se casar com ela. Ouvi tudo quieto, não sei o porquê. Sai para conversar com tal homem, ele trabalhava em uma loja de moveis. Tomamos uma cerveja e depois me dei conta que estava entregando minha mulher para aquele cara. Voltei para casa e Mariazinha estava com minhas coisas enroladas. Ela estava usando um vestido que eu gostava. Me deu um aperto no coração, mas apenas apertei a mão dela e disse adeus. Fui para a boate trabalhar, quando chega uma bicha para entrar na festa. Barrei ela como a ordem do dono. A bicha se altera e logo após, chega o dono mandando ela entrar dizendo que eu havia cometido um grande equívoco. Não entendi, pois tinha feito o que ele mandou. Um garçom me chamou dizendo que o chefe queria falar comigo. Ele me mostrou um homem e falou para eu expulsa-lo porque ele estava arranjando encrenca. Fui lá, falei grosso com o cara, chamei a garota que estava com ele de puta e mandei ele embora. Ele estava saindo quando uns caras de outra mesa ficaram me olhando. Para irritar, perguntei se algum deles queria levar uma bolacha. Para poder forçar a decisão deles, dei um tapa na cara da mulher que estava ao lado dele. Pronto. A briga começou em toda a boate. Me escondi no bar e não sobrou nada, nem garrafa nem lustre. A policia foi embora depois disso e falei pro dono da festa que ele teria que me pagar hospital e mais um dinheiro de gratificação, porque eu quebrei três dentes tentando defender a boate dele. Recebi um pacote de dinheiro, e fui embora.

Abril, no Rio, em 1970

   Estava sentado na grama. Pensando no jogo de domingo. Ele ia ser assistido por Jair da Rosa Pinto, técnico do Madureira. Algo dentro de mim me dizia, Zé, essa será sua chance. Contei para Nely, minha garota que Jair iria me ver domingo no jogo. Mas ela nem deu bola, me puxou para a cama e foi aquela loucura. Minha garota é fogo. Braguinha me contou que os jogadores treinavam todos os dias e não viam mulher. Nem mãe nem namorada. Diziam que a mulher acaba com o cara, mas eu nunca tinha acreditado até hoje quando não sei por quê, comecei a achar que aquilo era verdade. Perguntei se Braguinha era médico, ele negou e disse que já viu garoto de 18 anos perder seu futebol por causa de mulher. Pensei comigo, “poxa, 18 nos, a minha idade!”
   Nely morava em um apartamento que dividia com a sua amiga Margarida, uma moça muito boazinha. Quando ia dormir com minha garota, ele dormia na sala e fingia não ouvir os gemidos dentro do quarto. Comi a macarronada que Nely fez e já estava me despedindo, alegando que não estava muito bem, mas a verdade era que eu tinha que estar em forma para jogar bem amanhã para o Jair ver o jogo e me levar para fazer um teste. Ela começou a gritar e a alegar que eu ia me encontrar com outra mulher. Disse que não ia, até jurei pela minha mãe, quando ela me disse: “Você não tem mãe!” Era verdade. Eu não tinha. Contei a verdade para Nely e ela começou a me chamar de mentiroso. Falei que atletas não podiam andar com mulheres na véspera do jogo. Abri a porta, ela veio e me abraçou. Sai do abraço e disse que amanha voltaria ao apartamento. Ela falou que se eu saísse, não precisava voltar nunca mais. Abri a porta e fui embora para a pensão.
   Cheguei para jogar e seu Tião, o treinador já estava no gramado. Ele nos reuniu e disso como queria que n os jogássemos. O jogo começou e logo no inicio já dei um passe errado. Percebi que joguei mal quando o jogo terminou. Nosso time perdeu. Olhei para trás e vi Jeová, o melhor jogador do time adversário conversando com um homem. Achei que era Jair da Rosa Pinto, mas não quis olhar de novo para confirmar. Todos foram embora. Eu fui o ultimo a sair. Sai lentamente, sem saber para onde ir.

Corações Solitários

   Eu trabalhava como repórter de polícia em um jornal popular da cidade. Há tempo não acontecia nenhum crime interessante envolvendo morte, desaparecimentos ou violências. Estávamos em uma fase ruim. Antes que essa fase melhorasse, fui demitido. Fui contratado por Oswaldo Peçanha, editor-chefe da revista Mulher. Uma revista feita para mulheres da classe C. Peçanha perguntou-me se eu poderia fazer a seção de mulher para mulher, que era tipo um consultório sentimental. Aceitei e ele pediu para que eu pensasse em um nome falso para mim. Escolhi Nathanael Lessa, só que todos que trabalhavam lá na revista usavam pseudônimos femininos. Peçanha ficou irado comigo pela escolha do nome masculino, pois teria de ser feminino. Ele falou que mais tarde me diria, pois o que eu queria era o emprego. Voltei a sua sala e vi que encima de sua mesa havia uma carta de meu primo, Machado Figueiredo, que trabalhava há mais de 25 anos no banco do Brasil e no qual Peçanha devia dinheiro. Quando ele soube que Figueiredo era meu primo, aceitou que eu tivesse um pseudônimo masculino. Foi assim que comecei a fazer parte da revista Mulher. Logo no primeiro dia percebi que as cartas que recebia eram falsas, mas mesmo assim, tinha que responder para ser publicada na revista. No dia seguinte, Peçanha me chamou e perguntou se eu podia escrever fotonovela. Disse que sim e teria que escolher um nome. Escolhi Clarice Simone. Enquanto escrevia para a revista e fazia fotonovela também, comecei a receber cartas de um tal de Pedro Redgrave. Só que essas não me pareciam falsas e sim verdadeiras. Ele escrevia e me mostrava ser um travesti depressivo e não assumido, pois em suas cartas ele relata que adora fazer coisas de mulheres, como fazer crochê, usar vestido e batom. Contei para Peçanha desta carta e ele falou-me que achava que tal carta era escrita por uma mulher, mas eu discordei. Continuei a receber cartas de Pedro e em uma ele dizia para eu mandar rezar uma missa para ele pois ele iria se matar por não poder ficar com quem ele amava. Peçanha me chamou e quando entrei em sua sala, havia um homem de óculos preto e cavanhaque, que se chamava Dr. Pentecorvo e que era Pesquisador motivacional. Tal homem disse para Peçanha que a maioria dos leitores da revista mulher era lida por homens da classe C. Peçanha revoltou-se tanto que Pentecorvo saiu de sua sala. Como era Peçanha quem analisava as cartas e as minhas respostas para depois publicá-las, ele entregou-me a carta de Pedro e a minha resposta para eu levar para a composição. Percebi que ele havia me entregue a carta errada. Era uma carta que não tinha o fim, parecia que tinha sido interrompida. Havia algo errado. Peguei a carta e fui até a sala de Peçanha. Entreguei a carta, ele percebendo o engano, empalideceu. Ele me falou que sua vida era um romance e pediu para que tudo ficasse entre nós. E eu respondi “claro, só entre nós”.

Feliz Ano Novo

   Era véspera de ano novo e lá estava eu com meu parceiro Pereba assistindo a televisão e vendo tudo as madames comprando roupas chiques em lojas bacanas para usarem na virada do ano. Nossa situação tava tão crítica que falei para Pereba que iria esperar o dia raiar para pegar a galinha morta, a cachaça e a farofa que os macumbeiros deixaram na rua, pois ele estava reclamando de fome. Me disse para não contar com ele e lembrou-me do que tinha acontecido com o Crispim. Chutou uma macumba e agora ele esta andando de muleta. Pensei comigo, eu sei ler, escrever e fazer raiz quadrada, chuto a macumba que quiser. Acendemos um cigarro e continuamos a olhar a novela. Zequinha chegou e logo falou que a maré não estava boa pro lado dele, pois o Bom crioulo tinha levado 16 tiros, Vevé foi estrangulado e ele estava com medo de o próximo ser ele. Eu e ele tínhamos assaltado um mercado no Leblon, só que não tinha dado muita grana. Falei para Zequinha que as ferramentas do Lambreta tava todas aqui, uma carabina doze, de cano serrado e duas Magnum. Descemos as escadas e fomos ao apartamento de dona Candinha pegar um pacote. Ela nos entregou e voltamos para o nosso apartamento. Lá dentro tinha uma máquina ou uma arma, como preferirem. Zequinha falou que um dia daria um tiro em um policial e deixaria ele grudado na parede. Fumamos e bebemos mais um pouco ate tudo acabar. Tomamos uma decisão, fomos a procura de uma casa que esteja em festa. Pegamos o opala e encontramos um lugar perfeito. Jardim grande e a casa ficava lá no fundo. Colocamos as meias na cara e invadimos. Cheguei gritando que era um Assalto e mandei todo mundo deitar e ficar quito para não se machucar. Havia 25 pessoas. Mandei Pereba subir e pegar a mulher que estava no 2º andar. Pegamos tudo que tinha: dinheiro, cartões de credito, talão de cheque, relógios e as jóias das mulheres. Subi as escadas e vi uma mulher morta com as roupas rasgadas e a língua de fora. Pereba havia matado. Peguei as jóias dela também. Andei pelo corredor e encontrei uma velha deitada no chão, acho que morreu de susto. Arranquei colares, broches e anéis. Tinha um que não saia, então arranquei o dedo da velha com uma mordida e coloquei dentro do saco. Desci. Para assustar a todos, falei que quem se mexesse levaria um tiro na cabeça. Um homem, Maurício, disse que poderíamos levar tudo e comer a vontade que eles não denunciariam para a polícia. Mandei ele se levantar e chegar perto da parede. Dei um tiro no meio do peito e ele não ficou grudado na parede. Zequinha lembrou-me que tinha que ser em uma parede de madeira para grudar. Ele chamou um magrelo de cabelos compridos e mandou ele ficar perto da porta de madeira e deu um tiro. Ele ficou grudado por um tempo, mas logo depois foi escorregando.
   Enchemos toalhas e fronhas de jóias e comidas e fomos embora. Largamos o opala em uma rua deserta e voltamos para o apartamento como material. Botei as ferramentas no pacote, as jóias e o dinheiro em um saco e levei para a Dona Candinha. Subimos. Coloquei a toalha no chão com as comidas e as bebidas no chão. Pereba chegou, enchi os copos e falei: “Que o próximo ano seja melhor. Feliz ano novo!”